Há
diversas formas falsas de arrependimento que bem podem ter dado ocasião a estas
palavras de Agostinho: “O arrependimento condena muitos”. Ele se referia ao
falso arrependimento; à pessoa que se ilude com uma imitação do arrependimento.
1.
A primeira imitação do arrependimento é o medo da lei.
Um
homem permaneceu muito tempo no pecado. Por fim, Deus o detém, mostra-lhe o
risco desesperador que ele corre, e ele se enche de angústia. Não demora, a tempestade
da consciência é soprada para longe, e ele se tranquiliza. Então conclui que é
um verdadeiro penitente porque sentiu alguma amargura por seu pecado. Ninguém se
engane: isso não é arrependimento. Acabe e Judas tiveram alguma inquietação
mental. Uma coisa é ser um pecador aterrorizado, outra é ser um pecador
arrependido.
O
sentimento de culpa é suficiente para gerar terror. A infusão da graça gera
arrependimento. Se a dor e a aflição fossem suficientes para o arrependimento,
os condenados no inferno seriam os maiores penitentes, pois eles estão na maior
angústia. O arrependimento depende da ocorrência de mudança do coração. Pode
haver terror pelo pecado sem mudança do coração.
2.
Outra imitação do arrependimento é a resolução contra o pecado.
Uma
pessoa pode dispor-se a fazer novos votos e, contudo, não ser penitente.
“Dizias tu: nunca mais transgredirei” (Jeremias 2:20). Aqui houve resolução; mas,
veja o que se segue: “Debaixo de toda árvore verde te andas encurvando e corrompendo”.
Não obstante os seus compromissos solenes, o povo rompeu com Deus e correu após
seus ídolos. Vemos pela experiência quais declarações uma pessoa fará quando
cair de cama, se Deus o recuperar; todavia, ela continua tão má como sempre.
Numa nova tentação ela mostra o seu velho coração.
As resoluções contra o pecado
podem surgir:
(1) De uma situação extrema; não porque o
pecado é grave, mas porque é doloroso. Essa resolução se desvanecerá.
(2) Do medo de um mal futuro, a apreensão
causada pela morte e pelo infer-no: “Olhei, e eis um cavalo amarelo, e o que
estava assentado sobre ele tinha por nome Morte, e o inferno o seguia”
(Apocalipse 6:8). Que não fará o pecador, que votos não fará, quando sabe que
vai morrer e que vai comparecer perante o trono do juízo? O amor próprio
provoca o voto de um enfermo, e o amor ao pecado prevalecerá contra isso. Não
se precipite a tomar uma resolução; ela surge numa tempestade e morrerá numa
calmaria.
3.
A terceira imitação do arrependimento é o abandono de muitas formas de pecado.
É
uma grande realização, confesso, abandonar um ou mais pecados. O pecado é tão
valorizado por este ou àquele homem que ele prefere abandonar um filho a
abandonar o pecado da luxúria. “Darei... o fruto do meu ventre pelo pecado da
minha alma?” (Miqueias 6:7). O pecado pode ser abandonado, ainda que sem
arrependimento.
Consideremos:
(1) Um homem pode abandonar alguns
pecados e manter outros, como Herodes, que reformou muitas coisas erradas, mas
não pôde renunciar a seu incesto.
(2)
Um velho pecado pode ser abandonado
para dar lugar a um novo pecado, como você manda embora um criado para contratar
outro. Isso é fazer troca de pecados. O pecado pode ser trocado, e o coração
permanecer sem mudança. Quem foi pródigo em sua juventude torna-se usurário na
idade madura. Um escravo é vendido a um judeu; o judeu o vende a um turco. O
senhor é outro, mas o escravo continua sendo escravo. Assim sucede que o
pecador muda de um vício para outro, mas continua sendo pecador, continua em
pecado.
(3) Um pecado pode ser abandonado mais
por motivos de prudência do que pela força da graça. Um homem vê que, embora
este ou aquele pecado lhe dê prazer, todavia não convém a seus interesses.
Acabará com o seu crédito, prejudicará a sua saúde, arruinará as suas posses.
Daí, por razões de prudência, ele o descarta.
O
verdadeiro abandono do pecado acontece quando os atos pecaminosos cessam pela
infusão de um princípio da graça, como um ambiente deixa de estar escuro pela infusão
de luz.
Fonte: A
Doutrina do Arrependimento - Thomas Watson.

Nenhum comentário:
Postar um comentário