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BATISMO NO ESPIRITO

Entre as maiores bênçãos outorgadas pelo evangelho cristão está a habitação do Espírito divino na pessoa e o Seu revestimento. O Espírito de Deus, agindo primeiramente na natureza e na história, mas ocasionalmente vindo sobre artistas, profetas, lideres ou reis, com poder capacitador, foi prometido como o instrumento pessoal e permanente do Messias para a Sua obra (Is 11.1-2; 61 :1-3). Outros profetas transmitiram uma promessa semelhante a todo o povo de Deus (Jl 2.28-29; cf. Ez 36.26-27).
No NT. No devido tempo, o profeta João Batista, procurando preparar os judeus para o Messias, enfatizou um dos aspectos desta profecia notável. Advertiu a respeito de uma purificação radical, interna e pessoal, que acompanharia uma purificação externa da nação, por meio do julgamento. A única alternativa que ele oferecia a semelhante imersão (batismo) em "Espírito e fogo" era aceitar seu batismo na água como símbolo de arrependimento total e de mudança de vida (Mt 3.11-12; Lc 3.7-17).
Desta maneira, a promessa do Espírito veio a associar-se pela primeira vez com a linguagem do batismo - um batismo no Espírito Santo. Porém, muito mais autorizada e compulsiva no estabelecimento desta associação da vinda do Espírito com o batismo na água foi a experiência modelar de Jesus. No momento do Seu batismo, conforme insistem todos os quatro Evangelhos, o Espírito desceu como uma pomba e permaneceu sobre Ele (Mt 3.16; Mc 1.10; Lc 3.22; Jo 1.32; cf. At 10.38), Daí por diante, o batismo na água e o recebimento do Espírito\devem sempre estar relacionados nas mentes dos cristãos.
No entanto, o contraste que João fez entre o batismo na água e o batismo no Espírito Santo, como alternativas, recebeu uma relevância mais profunda quando suas palavras foram repetidas por Jesus (At 1.5), ecoadas por Pedro (At 11.16), relembradas por João, o evangelista (1.26,33), e por Paulo (At 19.4-6; d.1 Co 12.13). Nestas referências, o recebimento do Espírito Santo pelos cristãos já não é a alternativa ao batismo na água para o arrependimento, mas pelo menos seu correspondente apropriado, mais provavelmente seu suplemento e cumprimento. Visto que para o judaísmo, para João Batista e para a igreja apostólica, o batismo na água era um rito de iniciação para alguém se afiliar ao povo de Deus, a experiência inicial de habitação e revestimento do Espírito na pessoa veio a ser chamada de um "batismo no" ou "com" o Espírito Santo.
No original grego, a preposição é ambígua: en pode ser uma preposição local, com o significado de "dentro" da água ou do Espírito; ou, seguindo, o idioma hebraico, pode ser instrumental, com o significado "por meio de" água ou de Espírito. Mas, como nas frases paralelas, "batismo em ou com fogo" ou "em ou com sofrimento" (veja Mc 10.3839), a diferença entre "em" e "com" é mais teórica do que prática.
Este contexto judaico e joanino explica a expressão estranha e possivelmente enganadora: "batismo em ou com o Espírito Santo". Ela traz consigo a sugestão de que o Espírito de Deus é um elemento, uma energia ou instrumento, mais do que uma pessoa.
O derramamento do Espírito (JI 2.28-29; At 2.17, 33) reflete de modo semelhante o conceito de Espírito no AT, como o poder invisível de Deus, manifestado somente nos seus resultados. Mas quando se chega ao conceito plenamente cristão de Espírito como Pessoa divina, como o "outro Eu" de Cristo (Jo 14.17; 16.7; 2Co 3.17; "o Espírito de Jesus", At 16.7), falar de "afusão" ou de "batismo no" Espírito já não parece completamente apropriado.
Esta distinção entre o Espírito como Pessoa e o Espírito como elemento ou energia tem importância prática, a fim de se evitar que um emprego descuidado de palavras nos leve a supor que possamos manipular o poder do Espírito, ao invés de nos entregar à vontade do Espírito (veja 1Co 12.11), Uma vez notado tal perigo, a frase "batismo no Espírito" não é mais vaga nem nebulosa do que "batismo em Cristo" (Gl 3.27), "batizado na Sua morte" e ressurreição (Rm 6.3,5), "batizado em um só corpo" (de Cristo, 1Co 12.13).
No pensamento do NT, o batismo significava uma experiência tão profunda, tão radical, tão transformadora e tão eficaz que somente frases telescópicas como estas poderiam descrever suas conseqüências incomensuráveis.
Em especial, a habitação do Espírito Santo na pessoa e o revestimento do Espírito Santo, que se tornaram disponíveis através de Cristo para todos os que crêem, vieram inevitavelmente a ser ligados com aquele passo público crucial, mediante o qual os indivíduos se tornavam cristãos no início, e eram aceitos como membros da igreja de Cristo, cheia do Espírito, guiada pelo Espírito, fortalecida pelo Espírito. É bem natural que a experiência tenha sido descrita como ser batizado no ou com o Espírito Santo.
Na Experiência Atual. Nos debates atuais, no entanto, uma frase um pouco diferente, "o batismo do Espírito", substituiu as frases bíblicas, especialmente nos círculos pentecostais e carismáticos. No seu uso mais comum, esta nova expressão tende a colocar menos ênfase na habitação do Espírito em nós, com a iluminação da nossa mente (Jo 14.26; 16:8-15), no aperfeiçoamento do nosso caráter (o fruto do Espírito, Gl 5.22,23; o amor, 1 Co 12.27-13.13) e nos dons de paz, poder e alegria que o Espírito outorga. Ao invés disto, embora não negue estas coisas, a frase veio a associar-se especificamente com a dotação inicial e contínua de indivíduos, mediante o Espírito, de poderes miraculosos, dons, capacidades, recursos emocionais, manifestados na cura divina, no falar em outras línguas, na profecia, na liderança, na emoção exuberante, e em outras formas de capacitação para o serviço cristão.
Junto com esta diferença de ênfase quanto às qualidades da vida e do serviço que mais claramente demonstram o poder do Espírito, as opiniões também se dividem quanto a quando e onde se pode esperar o recebimento inicial do Espírito.
Alguns insistem em dizer que a primeira experiência no Espírito coincide com a conversão. Resistem a qualquer sugestão de que uma experiência tão vital pode depender, em qualquer medida, de um evento meramente ritual como o batismo na água. Ressaltam o ministério necessário do Espírito para conduzir qualquer alma a Cristo. Sem o Espírito, ninguém pode chamar Jesus de Senhor (1 Co 12.31.nem nascer no reino (Jo 3.5), nem vir a pertencer a Cristo de algum modo (Rm 8.9). Desta forma, receber o Espírito é uma parte essencial da própria salvação.
Alguns insistem em afirmar que, no padrão de iniciação descrito no NT, o recebimento do Espírito acompanha o batismo na água. Estes argumentam que o batismo apostólico certamente não era um simples ritual, mas uma dedicação deliberada, pública e irrevogável, às vezes até perigosa, ao senhorio de Cristo. Era acompanhada pela confissão de Cristo diante dos homens, que era essencial à fé salvífica (Rm 10.9; cf. Mt 10.32-33), por parte de todo crente arrependido. Defendendo a estreita associação entre a experiência do Espírito e este batismo na água, indicam a implicação clara da própria metáfora - "batismo" no Espírito. Insistem em que a experiência do próprio Cristo no Seu batismo estabelece a norma para todo batismo cristão. E lembram-se não somente das palavras de João Batista, freqüentemente repetidas, que ligam o batismo na água com o prometido batismo no Espírito, mas também da ordem e promessa claras de Pedro, no Pentecoste: "Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado ... e recebereis o dom do Espírito Santo" (At 2.38-39).
Com talvez um pouco mais de hesitação, os defensores do conceito de que o batismo no Espírito deve acompanhar o batismo na água chamam a atenção à ação de Paulo em Éfeso, que procurou reparar um batismo, que não outorgara o Espírito, por meio de um batismo eficaz (At 19.1-6). Sugerem também que, segundo este conceito, expressões tais como "nascer da água e do Espírito" (Jo 3.5), "lavados ... santificados ... justificados, em o nome do Senhor Jesus Cristo" (1 Co 6.11) e "o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo" (Tt 3.5) são mais facilmente entendidas.
Outros insistem em que o batismo do Espírito é uma experiência subseqüente à conversão e inteiramente independente do batismo na água, e que possivelmente o substitui. É uma segunda bênção, uma "plenitude" do Espírito, que suplementa a conversão, à medida que o crente novo avança para a maturidade. Estes argumentam que o suposto padrão do NT certamente não tem sido coisa corriqueira na igreja histórica. Enfatizam que, para os primeiros discípulos, o Pentecoste ocorreu depois de conhecerem Jesus, como conseqüência deste conhecimento. Lembram-se de que alguns cristãos são conclamados assim: " ...enchei-vos do Espírito" (Ef 5.18). Acima de tudo, indicam a pobreza da experiência espiritual de muitos cristãos professos (e batizados) como prova de que algo mais do que a conversão e o batismo é necessário para uma vida cheia do Espírito.
As diferenças de exegese e o debate teológico não devem ter a liberdade de obscurecer a verdade primária de que o Espírito do Cristo vivo procura enriquecer, capacitar e usar cristãos de todas as gerações. O significado espiritual do batismo apostólico e daquele que prevalece na igreja moderna é tão diferente que, para a maioria dos cristãos, a "plenitude do Espírito" será uma experiência muito subseqüente ao batismo. Mas o modo de descrevermos a experiência é menos importante do que abrirmos nossa mente, coração e vontade ao poder e à alegria que o Espírito deseja nos outorgar. A igreja contemporânea e o mundo moderno têm forte necessidade de cristãos batizados no Espírito Santo.
Fonte: Enciclopédia Histórico -Teológica da Igreja Cristã -Walter A. Elwell

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