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A IMPORTÂNCIA DA PROFECIA

Na história da Igreja, os textos bíblicos proféticos ou escatológicos tem sofrido mais por causa da interpretação inadequada do que qualquer dos outros principais temas teológicos. A razão disso é que a Igreja abandonou a interpretação literal, gramático-literal, da profecia e adotou uma interpretação que não é literal e está sujeita aos caprichos dos intérpretes. Essa falsa abordagem na interpretação da profecia se contesta, acima de qualquer dúvida, pelo fato de que tantas centenas de profecias já se cumpriram literalmente.
Nos dois primeiros séculos da era cristã, a Igreja foi predominantemente premilenar na interpretação da Bíblia para ensinar que Cristo cumpriria a profecia de Seu segundo advento dando início a seu reinado de mil anos antes que o estado eterno tivesse começo. Essa posição era considerada normal na teologia ortodoxa. No começo, nem sempre a interpretação da profecia era coerente, mostrando-se antes fantasiosa, pois a profecia, na sua maioria, era tratada como se fosse outra Escritura qualquer.
Nos últimos dez anos do século II e no século III, a escola herética de teologia de Alexandria, no Egito, passou a defender o princípio errôneo de que a Bíblia deve ser interpretada num sentido alegórico, não literal. Ao aplicarem esse princípio às Escrituras, eles subverteram todas as principais doutrinas da fé, incluindo a profecia.
A Igreja antiga levantou-se e negou enfaticamente o sistema alexandrino e, até certo ponto, restaurou a interpretação da Bíblia a seu sentido literal, gramatical e histórico. O problema era que, nas porções proféticas, havia predições que ainda não tinham tido cumprimento. E isso dificultava provar que num sentido literal era como se deviam interpretar as profecias. O resultado foi um tanto catastrófico quanto à profecia, e a Igreja debateu-se na área da interpretação do futuro.
Agostinho (354-430) libertou a Igreja dessa incerteza em relação às Escrituras não proféticas, mas continuou a tratar a profecia num sentido não literal, com o propósito de eliminar um reino milenar sobre a terra. O que é de estranhar é que Agostinho defendesse as idéias de uma Segunda Vinda Literal, de um céu literal e de um inferno literal, mas não e um milênio literal. Essa exceção arbitrária nunca foi explicada.
Visto que o amilenísmo, que nega um reino milenar literal sobre a terra após o Segundo Advento, é essencialmente negativo e impede uma interpretação literal inteligente da profecia, houve pequeno progresso nessa área. Entretanto, a Igreja antiga continuava a crer no céu, no inferno e no purgatório, mas negligenciava ou descartava longas passagens que dizem respeito a Israel na profecia ou ao reino sobre a terra, conforme é revelado com freqüência no Antigo Testamento. E até mesmo na reforma protestante a profecia não foi resgatada desse empecilho em sua interpretação.
Embora uma pequena parcela da Igreja continuasse apresentando o ponto de vista premilenar, não foi senão já nos séculos XIX e XX que começou a ser aceito um movimento que buscava restaurar a verdade literal da profecia bíblica. O século XX tem sido especialmente significativo no progresso da interpretação das profecias e ê o tempo em que muitos detalhes da profecia têm sido debatidos e esclarecidos de um modo como nunca foi possível antes. Embora o amilenismo continue a ser a posição predominante da Igreja, entre aqueles que dão um alto valor às Escrituras a interpretação premilenar tem merecido uma exposição detalhada, servindo isso para dar uma visão inteligente do presente e do futuro, do ponto de vista da profecia bíblica.
A importância da profecia deveria ser evidente, ainda que superficialmente, quando examinamos a fé cristã, pois cerca de uma quarta parte da Bíblia se compõe de profecia, desde o princípio. E óbvio que Deus tinha como plano afastar o véu do futuro, além de dar-nos algumas indicações de quais são Seus planos e propósitos para a raça humana e para o universo como um todo. O fato ê que as Escrituras que justificam uma interpretação milenar vinham sendo negligenciadas e interpretadas erroneamente; agora no século XX, pelo menos até certo ponto, têm tido uma interpretação corrigida.
Na fé cristã, pela sua natureza, uma expectativa sólida para o futuro ê essencial. Sem um futuro claro, o cristianismo não seria o cristianismo fundamental. Fazendo contraste com a escatologia das religiões pagas, que geralmente pintam o futuro com cores impossíveis, a esperança cristã é brilhante e clara, oferecendo ao crente o fato básico de que a vida por vir será melhor do que esta vida presente. E conforme Paulo afirmou em II Coríntios 5.8: "Mas temos confiança e desejamos antes deixar este corpo para habitar com o Senhor". O futuro é pintado pela fé cristã como um período de bem-aventurança e felicidade, na presença do Senhor, sem os males que são comuns à vida presente.
A revelação profética nas Escrituras serve de importante evidência de que as Escrituras são acuradas em sua interpretação do futuro. Visto que aproximadamente metade das profecias da Bíblia já se cumpriu de modo literal, temos uma base intelectual apropriada para supormos que a profecia que ainda se cumprirá de igual modo terá um cumprimento literal. Ao mesmo tempo, isso justifica a conclusão de que a Bíblia foi inspirada pelo Espírito Santo, e que a profecia que ultrapassa qualquer esquema humano é, na verdade, uma revelação divina que certamente ocorrerá. O fato de que a profecia tem sido literalmente cumprida leva-nos à conclusão de que devemos dar, às profecias que ainda não tiveram cumprimento, uma interpretação literal.
A profecia bíblica, interpretada apropriadamente, também nos fornece diretrizes para estabelecermos o valor da conduta humana e das coisas que são pertinentes a esta vida. Para o crente, a questão final é se Deus considera valioso ou não o que Ele está fazendo, e isso faz contraste com o sistema de valores do mundo que é largamente materialista.
A profecia também dá apoio para a revelação bíblica da retidão de Deus e respalda a asserção de que a fé cristã mantêm uma relação integral com a moralidade. Como é óbvio, a vida presente não demonstra plenamente a retidão de Deus, porquanto muitas situações de malignidade não são ativamente julgadas. As Escrituras, que são proféticas, indicam que cada ato será levado a juízo da parte de Deus, de acordo com os padrões infinitos do Deus santo, e, de acordo com isso, a profecia dá uma base à moralidade, alicerçada sobre o caráter do próprio Deus.
A profecia também é um guia para se compreender o significado da história. Embora os filósofos continuem a debater uma filosofia da história, na realidade a Bíblia indica que a história é o desdobramento do plano e dos propósitos de Deus de revelar a Si mesmo e de manifestar Seu amor, graça e retidão, de um modo que seria impossível sem o concurso da história da humanidade. Na fé cristã, a história encontra seu clímax no plano divino para o futuro, dentro do qual a Terra, em sua forma presente, será destruída, e uma nova Terra será criada. Uma interpretação apropriada da profecia serve ao propósito de dar apoio e de fomenta todas as outras áreas da teologia, e sem uma interpretação apropriada da profecia todas as outras áreas tornam-se, até certo ponto uma revelação incompleta.
Tentado transmitir o sentido das Escrituras em relação ao passado e ao futuro proféticos, a compreensão e interpretação da profecia serve para projetar luz e entendimento sobre muitos aspectos de nossa ida presente, bem como sobre nossa esperança futura. No esforço de compreender e interpretar a profecia de modo correto, como um exercício teológico justificável, é necessário estabelecer uma base própria para a interpretação.
Fonte: John F. Walvoord – Profecias da Bíblia

ESCATOLOGIA

O termo escatologia (gr. eschatos, "último"; logos, "raciocínio"), significando "a teologia das últimas coisas," tem sido usado desde o século XIX para designar a divisão da teologia sistemática que lida com tudo o que era profeticamente futuro na época em que foi escrito, isto é, profecias que já se cumpriram, como também profecias que ainda não se cumpriram. Importantes assuntos de profecia incluem predições com relação a Jesus Cristo, tanto em sua primeira vinda como na segunda, Israel, os gentios, Satanás, cristianismo, os santos de todas as eras, a futura Grande Tribulação, o estado intermediário, a ressurreição dos mortos, o reino milenial, o juízo final e o estado eterno. Estes temas podem ser classificados como a revelação divina do programa quádruplo de Deus para: (1) Israel, (2) os gentios, (3) a igreja e (4) Satanás e seus anjos caídos.
Princípios de Interpretação. O conceito de previsão bíblica dos eventos futuros depende dos princípios interpretativos básicos adotados. Do ponto de vista da ortodoxia histórica, um sistema detalhado da escatologia é impossível sem assumir a autoridade e a exatidão das Escrituras. O liberalismo radical tem negado a possibilidade da previsão do futuro e tem tratado tais trechos das Escrituras como sendo tanto aparentemente proféticos como ilegítimos, expressando meramente a esperança humana, ou, na melhor hipótese, o propósito divino já cumprido. O liberalismo moderado, representado por A. Schweitzer, reconhece que o NT ensinou o final imediato dos séculos, mas sustenta que a profecia não é literalmente cumprida e que ela é apenas um veículo para ensinar um conceito geral da futura salvação divina e o juízo final. Um outro desvio da ortodoxia histórica é a opinião de C. H, Dodd que popularizou a "escatologia realizada", o ensino de que a escatologia é principalmente o propósito divino como foi cumprido na vida de Cristo ao invés de uma predição detalhada dos eventos. Karl Barth, o representativo estudioso neo-ortodoxo, considerou a profecia como uma antecipação da consumação, mas foi incapaz de dar claras particularidades. Estas variedades de interpretação dependem da premissa de que as Escrituras são registros falíveis do passado e incapazes de fazer predições exatas do futuro. Dentro da ortodoxia que aceita a infalibilidade da profecia, existem duas principais escolas de pensamento, que são distinguidas pela extensão em que interpretam a profecia de forma literal. A opinião mais antiga interpreta a profecia com o mesmo grau de literalidade que as demais passagens das Escrituras. Uma opinião posterior usa uma forma dupla de interpretação. Embora seguindo a interpretação literal e gramatical das Escrituras como um todo, ela interpreta a profecia de uma maneira não literal. A aplicação destes dois princípios levou a uma tripla divisão da escatologia ortodoxa. A forma mais antiga e mais literal, de escatologia é a interpretação quiliástica ou pré-milenial, que defende que Cristo reinará na terra por mil anos após sua segunda vinda. O tipo não-literal de interpretação da profecia tornado popular por Agostinho levou a uma forma amilenial de escatologia, que primeiro tornou-se proeminente com Orígenes no século III. Esta opinião interpreta o reino de Deus como um reinado de Cristo nos corações dos crentes entre o primeiro e o segundo advento, e conseqüentemente nega um reinado milenial terreno seguindo o segundo advento. O pós-milenialismo é um derivativo posterior do amilenialismo, freqüentemente creditado a Daniel Whitby (1638-1726), um inglês unitariano. Esta teoria, agora defendida apenas por alguns, interpreta o reinado milenial de Cristo mais literalmente do que o amilenialismo e o considera como os últimos mil anos do período entre a primeira e a segunda vinda de Cristo. Embora freqüentemente confundida com o amilenialismo, ela pode ser distinguida como sendo mais otimista, e até certo ponto mais literal, em sua interpretação, A opinião obtém seu nome do ensino de que Cristo voltará no final do Milênio terreno ou utopia para julgar toda a humanidade. A questão interpretativa mais importante em escatologia, fora a crença na autoridade das Escrituras, é o uso do princípio da interpretação literal. A doutrina mais determinante é se haverá um reinado literal de Cristo na terra depois do segundo advento.
Profecias que dizem respeito a Jesus Cristo. A profecia messiânica é o assunto mais importante do AT, e seu cumprimento é o tema mais proeminente do NT. Cristo deveria nascer como cumprimento da promessa de um Salvador (Gn 3.15), da linhagem de Abraão (Gn 12.1-3), Judá (Gn 49.10) e Davi (2 Sm 7.12,13); Ele deveria nascer em Belém (Mq 5.2; Lc 2.4-7) de uma virgem (Is 7.14; Mt 1.23). Cristo deveria ser um Profeta (Dt 18.15), o Divino Filho de Deus (Is 9.6,7), um Sacerdote (Sl 110.4) e Rei (Zc 9.9). Ele deveria sofrer uma morte vergonhosa na cruz pelos pecados de todo o mundo (Sl 22; Is 53), para ressuscitar dos mortos (Sl 16.10) e ser glorificado (Dn 7.14). Em seu nascimento, vida, morte e ressurreição, que são eventos históricos, muitas profecias foram cumpridas, e foi deixada a seus discípulos a promessa de que Ele voltaria para estabelecer seu reino na terra (Mt 24.3,27-31; 25.31-46; At 1.6,7,10,11; Ap 1.7; 19.11-16).
Profecias que dizem respeito a Israel. Primeiramente anunciado a Abrão (Gn 12.1-3), o programa de Deus para Israel, os descendentes de Jacó, predizia sua continuidade como uma nação para sempre (Gn 17.7; Jr 30.11; 31.35-37), e sua última e permanente posse da terra prometida (Gn 12.7; 13.14,15; 17.8). Israel foi avisada de várias dispersões da terra, e lhe foi prometido um re-agrupamento final (Gn 15.13,14; Dt 28.63-67; 30.1-3; Jr 23.2-8; Ez 39.25-28; Am 9.14,15). O amplo esquema de seu programa profético é dado em Daniel 9.24-27. Os pré-milenialistas esperam um cumprimento literal destas profecias; os amilenialistas encontram um cumprimento não-literal na igreja hoje.
Profecias que dizem respeito aos gentios. O AT está repleto de profecias com relação aos gentios, começando com as predições que dizem respeito a Noé e à sua posteridade (Gn 9.25-27). Muitas profecias posteriores dizem respeito às nações que circundam Israel. De maior importância, porém, é a revelação dada através de Daniel (Dn 2, 7, 8, 11) com relação a quatro impérios: Babilônia, Medo-Pérsia, Grécia e Roma, cobrindo o período chamado por Cristo de "os tempos dos gentios" (Lc 21.24), isto é, o período durante o qual Jerusalém estará sob o domínio gentio começando em 605 a.C. e terminando na segunda vinda de Cristo. Muitos pré-milenialistas acreditam que a parte final do quarto império refira-se a um tempo ainda futuro, que ocorrerá pouco antes do segundo advento. 
Profecias que dizem respeito à igreja. O programa divino para a era presente, anunciado por Cristo (Mt 16.18), é a convocação de um corpo de santos composto tanto por judeus como por gentios (Ef 2.11-16; 3.6) para formar a igreja (q.v.). Há várias figuras relacionadas a Cristo, tais como a vinha e os ramos (Jo 15), o corpo (Ef 1.22,23) e a noiva (2 Co 11.2; Ef 5.23-32), a igreja estará completa em seu arrebatamento para o céu (Jo 14.3; 1 Co 15.51,52; 1 Ts 4.13-17). Os pré-tribulacionistas consideram que o arrebatamento deverá ocorrer aproximadamente sete anos antes da segunda vinda de Cristo (Dn 9.27); os pós-tribulacionistas consideram-no como uma fase da segunda vinda. Os membros da igreja que estiverem vivos nesta ocasião serão trasladados, isto é, receberão corpos celestiais no arrebatamento, e nesta ocasião os mortos em Cristo também serão ressuscitados. Galardões serão dados à igreja após o arrebatamento (1 Co 3.11-15; 2 Co 5.10,11), e a igreja estará com o Senhor para sempre (1 Ts 4.17). Os amilenialistas consideram o arrebatamento e a ressurreição como ocorrendo no segundo advento e como incluindo todos os homens, para ser seguido do estado eterno, no qual os salvos serão abençoados e os não salvos serão punidos.
O estado intermediário. Os teólogos ortodoxos defendem que após a morte todos os homens vão para um estado intermediário, de tormento para os não salvos e de alegria para os salvos, aguardando a ressurreição e o juízo futuros (Lc 16.19-31; 23.39-43; 2 Co 5.8; Fp 1.23; Ap 6.9-11; 7.9-17).
O reino milenial. De acordo com a opinião pré-milenial, Cristo reinará em pessoa na terra por 1.000 anos depois do seu segundo advento. Satanás será amarrado e tornado inoperante (Ap 20.1-3). O período será uma era de ouro no qual a justiça e a paz abundarão, a guerra será banida, e a prosperidade nos âmbitos espiritual, econômico e político será mundial (Sl 72; Is 2.2-4; 11.2-12; 65.17-66.24; Jr 23.2-8; 31.1-14,31-34; 33.14-18; Am 9.11-15). No final do Milênio, Satanás será novamente solto, e ganhará um grande número de seguidores que serão destruídos por um juízo de fogo dos céus (Ap 20.7-10). Os amilenialistas consideram estas profecias como tendo sido cumpridas na era presente.
O juízo final. De acordo com as Escrituras, todos os homens serão julgados (2 Tm 4.1; Hb 9.27). Os amilenialistas consideram este como um único evento relacionado ao segundo advento. Os pré-milenialistas consideram o juízo final como uma série de eventos, começando com o julgamento dos justos antes do Milênio, e terminando com o julgamento dos ímpios e de Satanás no final do Milênio (1 Co 3.11-16; 2 Co 5.10; Ap 20.4-6,9-15). O destino final dos ímpios é o lago de fogo.
O estado eterno. Descrito em Apocalipse 21— 22, o local do estado eterno é um novo céu e uma nova terra na qual está situada a Nova Jerusalém. A cidade celestial é retratada como um lugar de grande beleza, amplamente construída com pedras preciosas, o lugar da habitação de Deus como também dos santos de todas as eras.
Tomada como um todo, a escatologia é o clímax da revelação divina, a grande culminação de todo o programa de Deus para os séculos, e a razão principal da criação do mundo material. Nela os propósitos eternos de Deus para a humanidade serão cumpridos com grandes bênçãos para todos os santos.
Fonte: Dicionário Bíblico Wycliffe