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O Que é Religião?



1. A natureza da religião. A Bíblia nos informa que o homem foi criado à imagem de Deus, e que mesmo depois de cair em pecado esta imagem do Deus Altíssimo não foi apagada completamente, nem o homem deixou de ser o portador desta imagem. A despeito da natureza pecaminosa do homem em reagir contra ela, a semente da religião está implantada em cada ser humano, e os missionários dão testemunho de que a religião, expressa em uma ou outra forma, se encontra em todas as nações e tribos da terra. O que muitos denunciam como sendo uma maldição, ou “o ópio do povo”, é uma das bênçãos mais profundas que a humanidade já experimentou. A religião afeta não só os recessos mais profundos da vida humana, mas também controla seus pensamentos, sentimentos e desejos. Então, o que vem a ser religião? Tão-somente através do estudo da Palavra de Deus podemos compreender a natureza da verdadeira religião. A palavra religião provém não dos originais bíblicos, do hebraico e do grego, e sim do latim. Em nossa tradução da Bíblia, deparamo-nos com ela três vezes (At 26.5; Tg 1.26, 27). O Antigo Testamento define religião como sendo “o temor do Senhor”. Este temor não é um sentimento de terror ou medo, mas um reverente respeito por Deus. Ele vem acompanhado de amor e confiança. Esta é a resposta do crente veterotestamentário à revelação da lei. No Novo Testamento, é antes a resposta ao evangelho do que à lei, e se apresenta sob a forma de fé e piedade. As Escrituras nos ensinam que a religião é uma relação do homem com Deus na qual o ser humano se dá conta da majestade absoluta e do poder infinito de Deus, em comparação com sua própria pequenez e insignificância, bem como sua completa impotência. Podemos, pois, definir religião assim: Uma relação com Deus, voluntária e consciente, que se expressa em uma adoração saturada de gratidão e em um serviço repassado de amor. A forma desta adoração religiosa e serviço a Deus não é o produto da vontade arbitrária do homem, mas foi determinada por Deus mesmo.

2. A fonte da religião. Há certos pontos de vista errôneos sobre a fonte da religião no homem. Há quem fale da religião como se fosse um conhecimento que reside na inteligência. Outros afirmam que é o senso da proximidade de Deus e o localizam na zona psíquica das emoções, enquanto outros põem sua ênfase na atividade moral do homem, e apontam para a vontade. Todas estas opiniões são parciais e contrárias às Escrituras, as quais nos ensinam que a religião tem a ver com o coração. Na psicologia bíblica, descobrimos que o coração é o órgão central da alma. É do coração que emana a vida, os pensamentos, os sentimentos e os desejos (Pv 4.23). A religião abrange todas as faculdades do homem: intelecto, emoção e moral. Esta é a única opinião que se enquadra bem na natureza da religião.

3. A origem da religião. Durante os últimos cinquentas anos, tem-se estudado cuidadosamente a questão da origem da religião. Têm-se feito tentativas de explicar a religião pelas vias naturais, porém sem sucesso. Alguns falaram dela como a invenção de sacerdotes astutos e fraudulentos, que tentaram fazer dela, desde os tempos mais antigos, uma fonte de acesso, mas que hoje tal explicação já perdeu todo seu valor. Outros afirmaram que a religião teve início com a adoração de objetos inanimados (fetiches), ou com a adoração dos espíritos dos ancestrais. No entanto, esta explicação não conseguiu resolver o problema de como se chegou a esta adoração de objetos inanimados ou viventes. Houve quem opinasse que a religião se originou com a adoração da natureza, ou, seja, de suas maravilhas e poderes, ou com a prática da magia. O defeito essencial de todas essas teorias é que nenhuma nos informa como o homem chegou a converter-se em um ser religioso, e todas começam com o conceito de um homem já religioso. A Bíblia nos apresenta o verdadeiro e único relato sobre a origem da religião. Primeiro, ela nos fala da existência de Deus, objeto único e digno de adoração. Em seguida afirma e assegura que Deus, a quem o homem jamais poderia descobrir por suas próprias faculdades naturais, se revelou, antes de tudo, na natureza, e, de um modo especial, em sua divina Palavra. A Bíblia afirma que este Deus exige a adoração e o serviço sinceros do homem, e ele mesmo define a classe de adoração e serviço que lhe agrada. Finalmente, a Bíblia nos ensina que Deus criou o homem a sua imagem e semelhança, e assim o capacitou a compreender e responder a sua revelação, e que, ao mesmo tempo, criou nele o desejo natural de buscar a comunhão com Deus e a glorificá-lo.

Para memorização:

1. Acerca da natureza da religião (Dt 10.12, 13; Sl 111.10; Ec 12.13; Jo 6.29; At 16.31).
2. A fonte da religião (Sl 51.10, 17; Pv 4.23; Mt 5.8).
3. A origem da religião (Gn 1.27; Dt 4.13; Ez 36.26).

Para estudo adicional:

1. Quais são os elementos da verdadeira religião? (Dt 10.12; Ec 12.13; Os 6.6; Mq 6.8; Mc 12.33; Jo 3.36; 6.29; At 6.31; Rm 12.1; 13.10; Tg 1.27).

2. Que práticas da falsa religião a Bíblia nos descreve? (Sl 78.35, 36; Is 1.11-17; 58.1-5; Ez 33.31, 32; Mt 6.2, 5; 7.21, 26, 27; 23.14; Lc 6.2; 13.14; Gl 4.10; Cl 2.20; 2Tm 3.5; Tt 1.16; Tg 2.15, 16; 3.10).

3. Cite seis exemplos da verdadeira religião (Gn 4.4-8; 12.1-8; 15.17; 18.22, 23; Ex 3.2-22; Dt 32.33; 2Rs 18.3-7; 19.4-19; Dn 6.4-22; Lc 2.25-37; 7.1-10; 2Tm 1.5).

Para revisão:

1. A religião se limita a certas tribos ou nações?
2. Como podemos aprender a conhecer a natureza da verdadeira religião?
3. Que palavras o Antigo e o Novo Testamentos usam para descrever a religião?
4. Defina o que é religião.
5. Que conceitos equivocados existem acerca da fonte da religião no ser humano?
6. Segundo as Escrituras, qual é o centro da vida religiosa?
7. Que diferentes explicações se têm dado sobre a origem da religião?
8. Qual é a única explicação satisfatória?

Fonte: Manual de Doutrina Cristã - Louis Berkhof.

MÁRCION E SEU MOVIMENTO DE REFORMA



Seu caráter e propósito.
Márcion era nativo do Ponto (Sinope) e foi expulso de casa, aparentemente, por motivo de adultério, tendo ido para Roma cerca de 139 d.C. É-nos apresentado como homem de zelo profundo e de grande habilidade, que labutava no espírito de um reformador. A princípio procurou sujeitar a Igreja à sua maneira de pensar, mas não conseguindo êxito em sua obra reformista, sentiu-se constrangido a organizar seus seguidores numa igreja separada, bus­cando aceitação universal para seus pontos de vista através de ativa propaganda. Com frequência tem sido classificado como gnóstico, contudo a precisão dessa classificação é atualmente posta em dúvida. Loofs diz que a declaração de Hahn, "Márcion perperam gnosticus vocatur,  vai ao âmago da questão, porquanto ele tinha um propósito soteriológico, e não cosmológico; a fé, não o conhecimento, ocupava lugar de destaque em seu sistema; ele não desenvolveu mitos orientais e nem problemas filosóficos gregos, além de excluir as interpretações alegóricas". Isso concorda em linhas gerais com a afirmativa de Harnack, o qual diz que não se deveria classificar Márcion junto com gnósticos como Basilides e Valentino, dando os seguintes motivos para sua opinião: (1) Não era guiado por interesses metafísicos ou apologéticos, e sim por interesses puramente soteriológicos, (2) desse modo, toda a sua ênfase recaía sobre o evangelho puro e sobre a fé (não sobre o conhecimento), (3) não empregava a filosofia — pelo menos como um princípio principal — em sua concepção do cristianismo, (4) não procurou fundar escolas de filósofos, mas apenas reformar, em consonância com o autêntico evangelho paulino, as igrejas cujo cristi­anismo ele cria ser legalista (judaizante), as quais, segundo pensava ele, negavam a graça livre. Fracassando nisso, formou uma igreja só sua". Seeberg também destaca Márcion para estudo em separado.
Seus ensinamentos principais.
Para Márcion, o grande problema era como relacionar entre si o Velho Testamento e o Novo. Descobriu a chave do problema na Epístola aos Gálatas, que fala da oposição dos judaizantes a Paulo, e baseou-se na suposição de que os demais apóstolos compartilharam disso. Ficou convencido de que o evangelho fora corrompido ao mesclar-se com a lei. Assim, atirou-se à tarefa de separar da lei o evangelho, criando sua teoria acerca de opostos ou antíteses. Aceitava o Velho Testamento como genuína revelação do Deus dos judeus, todavia afirmava que Ele não podia ser idêntico ao Deus do Novo Testamento. É o Criador do mundo, embora um Deus longe de ser perfeito. Ele governa com rigor e justiça, é cheio de ira e nada conhece da graça. Contudo, não faz oposição ao Deus do Novo Testamento como se fosse o princípio do mal, mas tão-somente como um Deus inferior.
O Deus do Novo Testamento, por outro lado, é bom e misericordioso. Era desconhecido até ao décimo-quinto ano de Tibério, quando Se revelou em Cristo, o qual é frequentemente mencionado como o próprio Deus bom. Cristo não deve ser identificado com o Messias do Velho Testamento, posto que não corresponde ao delineamento profético acerca do Redentor vindouro. Ele veio como manifestação do Deus bom, não Se maculando com um corpo real, pois nada queria tomar dentre o reino do Demiurgo, mas meramente assumiu um corpo aparente, a fim de fazer-se inteligível. Revogou a lei e todas as obras do Demiurgo, motivo por que ocasionou Sua execução na cruz pelos príncipes deste mundo. Mas, visto ser irreal o Seu corpo, a crucificação em nada prejudicou ao Cristo. Ele proclamou o evangelho de amor e libertação da lei do Deus do Velho Testamento, abrindo assim um caminho de salvação para todos os que crêem, e até dos ímpios do outro mundo. Ficou subentendido, entretanto, que a maioria da humanidade pereceria, estando consignada ao fogo do Demiurgo, o Deus bom não os pune; simplesmente não os aceita. Esse é o Seu julgamento contra os ímpios. Visto que Márcion acreditatava que Paulo foi o único dos apóstolos que realmente entendeu o evangelho de Jesus Cristo, ele limitava o cânon do Novo Testamento ao Evangelho de Lucas e a dez epístolas do grande apóstolo dos gentios.
Fonte:Louis Berkhof – História das Doutrinas Cristã.