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A Fé e seus Heróis (Gênesis 12 a 50)



Nos capítulos restantes deste livro somos apresentados a quatro grandes personalidades. Aqui podemos ver não só como Deus trata os indivíduos, mas como, através de suas vidas transformadas, ele leva ajuda a outras pessoas.

Abraão: o homem que Deus chamou (capítulos 12 a 23)

Para Adão Deus havia dado uma palavra necessária de precaução (“Não comerás”); para Abraão (a princípio chamado Abrão), ele deu uma ordem empolgante sobre uma oportunidade de aventura: “Saia de sua terra” (12.1). Deus iria fazer desse personagem singular o fundador da mais importante comunidade do mundo, Israel, o povo de Deus. Adão respondeu em desobediência (Rm 5.12), mas Abraão respondeu em obediência imediata e fé dependente. Ele se pôs a caminho naquela longa e desconhecida viagem (12.4, 5) e provou que aqueles que obedecem à voz de Deus gozam de sua presença (12.7). Não que a história de Abraão seja uma narração completamente incólume (12.10-20. 20.1-18), mas ele era adorador (12.8), altruísta (13.8-11), corajoso (14.1-16), confiante em Deus (15.6), compassivo (17.18), hospitaleiro (18.1-5) e homem de oração (18.16-33). A história de Abraão começa com um chamado à obediência e termina no mesmo tema, mas com uma ordem ainda mais difícil. No primeiro capítulo de sua história (12) Deus pede que ele saia de sua parentela (12.1), mas no teste final é pedido que ele ofereça seu único filho em sacrifício (22). O pedido que lhe foi feito parecia tão estranho e até impiedoso, sem coração. Mas Abraão cria em Deus e sabia que, se ele pediu para fazer algo, devia ser com algum bom propósito. A experiência testou a realidade de sua fé, mostrou seu amor genuíno para com Deus, e forneceu a todos nós um retrato de uma oferta ainda maior. Prenunciava o dia em que nosso Pai celeste daria seu único Filho. O capítulo 23 registra a morte de Sara, e a provisão de um lugar de sepultamento para sua esposa e família, feita por Abraão.

Isaque: o homem que Deus guiou (capítulos 24 a 26)

O filho que foi poupado (22.12, 13) seguiu os passos de seu pai piedoso. Não há muitos detalhes sobre ele no livro, mas uns poucos capítulos nos contam como Deus providenciou uma esposa para ele (24.1-67), fê-lo pai em resposta a oração sincera (25.20, 21), deu-lhe alimento em tempo de fome (26.1-14) e ajudou-o a fazer provisão para o futuro, induzindo-o a abrir alguns poços desusados e negligenciados (26.18-22). “Altar”, “acampamento” e “poço”, todos aparecem em um só versículo (26.25) na história de Isaque. Simbolizam a atitude dele diante da vida. Isaque acreditou ser importante um homem discernir suas prioridades (o altar), lembrar sua peregrinação (tendas, Hb 11.8-10), e utilizar seus recursos (os poços).

Jacó: o homem que Deus mudou (capítulos 27 a 36)

A esposa de Isaque, Rebeca, deu à luz gêmeos (25.21-26). Os meninos eram muito diferentes na personalidade, pontos de vista e interesses. Esaú vivia para o dia presente (25.29-34), enquanto Jacó ficava de olho no futuro. Os esquemas perspicazes de Jacó criaram uma divisão entre os irmãos e a história que resulta não é um conto feliz (27.1-46). Jacó não era bem um homem agradável para se conhecer, mas ele ilustra o amor e bondade generosos de Deus, que nos abençoa não porque o merecemos, mas porque necessitamos. Deus se encontrou com ele (28.11-22) e lhe providenciou uma esposa (29.1-30) e filhos (30.1-26). Jacó teve várias dificuldades familiares (31.1-55) e muitas das tragédias que se seguiram foram ocasionadas por sua própria falta de sabedoria e amor. Mas Deus tirou dele sua autoconfiança, transformou seu caráter e mudou seu nome (32.24-32). Depois de um encontro dramático com um mensageiro de Deus, ele tornou-se um homem diferente.

José: o homem que Deus usou (capítulos 37 a 50)

O filho predileto de Jacó era chamado José. Os demais capítulos de Gênesis contam a história da vida e trabalho dele. Desprezado pelos irmãos, ele foi vendido a um grupo de mercadores que passava, para ser novamente vendido como escravo no Egito (37.1-35). Mais tarde foi empregado num próspero lar egípcio, mas a pureza de sua mente e a sua correção logo lhe custaram à liberdade. Durante um período de aprisionamento injusto, ele tornou-se conhecido como intérprete de sonhos. Todos os povos do Oriente Médio acreditavam que os sonhos tinham importante significado em suas vidas, e a interpretação do sonho do soberano do Egito levou-o finalmente a ser nomeado o mais alto oficial (40.1- 41.57). Uma fome calamitosa fez com que seus irmãos viessem ao Egito à procura de alimento e isso acabou levando-o ao encontro da família (42.1— 46.34). José pôde cuidar de seu pai e irmãos durante todo um período difícil (47.1-28). No avançado de seus anos Jacó abençoou José e seus dois filhos (48.1-22), bem como seus próprios filhos (49.1-33). Os irmãos de José temeram por suas próprias vidas quando Jacó morreu. Imaginaram que seu irmão influente os castigaria por sua crueldade para com ele, há muitos anos antes (50.15). Como o conheciam pouco! Ninguém podia negar que ele sofrera nas suas mãos. Seu próprio pai reconhecera isso no fim de seus dias (49.22-24), mas José tinha recursos espirituais sem limite. Como seu avô Isaque, sabia cavar um poço (49.22). Os poços de Isaque se encontravam espalhados pela terra, mas José tinha fontes secretas de paz e paciência. Elas saciaram sua sede em muitos dias difíceis, mesmo quando a vida era como um campo de batalha (49.23, 24). Rememorando a amargura dos irmãos e as tribulações que se seguiram, ele fez uma confissão de fé e confiança magnífica. Virando-se para seus irmãos já arrependidos, ele disse: “Vocês planejaram o mal contra mim, mas Deus o tornou em bem” (50.20). José sabia que Deus tinha usado essa tragédia para seus propósitos. No dia em que o jogaram naquele poço seco em Dotã (37.24), eles deram início a uma série de eventos ordenados por Deus destinados a tornar seu irmão enjeitado num líder e conselheiro, cuja habilidade e discernimento trariam esperança a milhares. Deus tem um plano para nossas vidas.

Fonte: Entendendo o Antigo Testamento - Raymond Brown.

O Mundo e seu Criador (Gênesis 1 a 11).

O primeiro livro da biblioteca chama-se “Gênesis”. Essa palavra significa simplesmente “origem” ou “começo”. Está aí para nos fazer lembrar que a Bíblia fala sobre Deus e seu modo de proceder com os homens e não meramente sobre os homens e seus esforços para buscar a Deus. Essa distinção é importante. Esclarece que, nos assuntos espirituais, a iniciativa é de Deus. Ele fez o mundo. Ele amou os homens. Ele quis muito que os homens andassem com ele em companheirismo, confiança e serviço - mas seu desejo foi frustrado pelo pecado. O livro de Gênesis conta a história da formação do mundo, a tragédia da rebelião pecaminosa do homem contra Deus, e de como, por várias maneiras, Deus veio ao homem, implorando que se arrependesse e mudasse.

Os primeiros dois capítulos nos apresentam um magnífico retrato da criação do mundo. Deve-se lembrar que este é um relato literário de uma realização maravilhosa e não um levantamento científico detalhado. Está ali, bem no comecinho da Bíblia, para afirmar grandes fatos e para esboçar temas imensos que, mais tarde, são desenvolvidos ao longo de toda a Bíblia de formas variadas. Para começar, a história da criação diz que a Palavra de Deus é poderosa (“E Deus disse: ‘Haja luz’, e houve luz” (1.3)). Sempre que Deus dá uma ordem, algo acontece. Ele nunca fala em vão (Is 55.11). A frase chave aqui é “E assim foi” (1.7, 9, 11, 15, 24, 30). Que maravilha que, bem no início da Bíblia, sejamos lembrados do poder da Palavra de Deus! Se ele quer alguma coisa, ele pronuncia a Palavra.

A Bíblia é a Palavra de Deus e ela realizará os propósitos dele em nossas vidas. Leia João 4.46-54 neste sentido e note que foi quando Jesus pronunciou aquela palavra poderosa - “O seu filho continuará vivo” - que o filho começou a se restabelecer. As histórias de criação também nos contam que O Trabalho de Deus é bom. “Viu Deus que ficou bom” é outro dito recorrente (1.4, 10, 12, 21, 25, 31, N V l). O que Deus fez foi um mundo lindo. O pecado desfigurou a magnificência deste mundo de muitas maneiras, mas ele ainda nos mostra algo da grandeza e glória de Deus (Sl. 8.3-9, 19.1-6, Rm 1.19-20). E mais, o modo de Deus é bondoso. Ele sabia que, ainda que o mundo fosse magnífico e que o homem que ele fez pudesse contar com seu companheirismo infalível (3.8), ele poderia sentir-se sozinho. Então lhe fez uma auxiliadora (2.18), e veio a este mundo maravilhoso o presente que não tem preço: o amor humano.

Observe, finalmente, que a vontade de Deus é a melhor. Deus veio e proferiu uma palavra adicional - para avisar o homem e instruí-lo. Colocou uma árvore naquele primeiro jardim e proibiu o homem de tocá-la (2.16, 17). Deus disse bem claramente: “Não coma”. Todas as outras frutas eram para seu deleite, mas essa não era para pegar. Possivelmente, a própria proibição teria a finalidade de fortalecer nele o sentimento de dependência de Deus, para que confiasse em sua voz a respeito de tais assuntos. Ele não deveria tocar daquela árvore para discernir o que era certo ou errado; o certo era ele escutar a voz de Deus sobre tais assuntos. Nós nem sempre entendemos tudo sobre as exigências de Deus para nossas vidas, mas como é melhor obedecê-lo do que o desconsiderar!

O relato da desobediência do homem vem a seguir (3.1-24), e essas primeiras páginas da história já contam um caso deprimente de ciúme (4.5), assassinato (4.8), medo (4.14), imoralidade (6.4-6) e orgulho (11.4). O triste relato dos capítulos 3 a 11 só é aliviado pelo heroísmo e devoção de uns poucos como Abel (4.4, Hb 11.4), Enoque (5.21-24, Hb 11.5) e Noé (6.8, Hb 11.7). De resto, há uma frase recorrente que grifa a história do pecado do homem: “e morreu” (5.5, 8, 11, 14, 17, 20, 27,31). É justamente o que Deus havia dito que aconteceria se o homem o desobedecesse (2.17). Note também como o pecado se espalha rapidamente de um indivíduo (3.1) a um casal (3.12), depois a uma família (4.1-15) e, finalmente, ao mundo todo (11.1-9).

Fonte: Entendendo o Antigo Testamento - Raymond Brown.

Daniel - Heroísmo em Dias Escuros.

O Livro de Daniel pertence a um tipo de literatura que chamamos de “apocalíptico”. Essa palavra significa “revelação” e o termo descreve livros que revelam ou descerram (tiram o véu de) segredos do futuro. No Novo Testamento o Livro de Apocalipse é um exemplo óbvio desse tipo de literatura. A mensagem de Daniel pode ser dividida em duas partes bem distintas:

1. Lealdade ao passado (capítulos 1 a 6).

A primeira seção descreve a bravura e lealdade de um grupo de jovens hebreus durante o cativeiro babilónico. Daniel e seus colegas ocupam um lugar de importância na corte pagã, e esperasse que comam certos alimentos que, com toda probabilidade, tinham sido primeiro oferecidos a deuses pagãos. No pensar da época, aqueles que comiam a comida participavam da vida da deidade, ou comungavam com o deus. Daniel e seus companheiros sabiam que isso entristeceria a Deus e então, recusando-se a comer esses alimentos palacianos, nutriram-se de uma dieta simples de vegetais. Contudo Deus os fez prosperar e ficaram mais saudáveis fisicamente e também mais sábios do que os outros cortesãos jovens (1.1-21). A história, bem no início promete honrar aqueles que o honram e lhe obedecem (1Sm 2.30; Mt 6.33).

Daniel e seus amigos leais se tornaram conhecidos por sua sabedoria (1.17), e logo ele foi usado para interpretar o sentido de um sonho desconcertante (2.1-49) de Nabucodonosor. Como a maioria dos monarcas da época, Nabucodonosor tinha ideias muito exaltadas sobre sua própria importância, e determinava que todos precisavamfazer exatamente o que ele ordenava, quer estivesse ou não em conflito com seus princípios. Ele colocou uma imagem na planície de Dura e exigia que todo o mundo a adorasse; a penalidade para quem se recusasse a fazê-lo consistia em ser lançado numa fornalha e morrer queimado.

Os amigos de Daniel, sabendo que a Palavra de Deus proíbe a adoração de imagens (Êx20.4), recusaram-se a adorar essa imagem e foram, por isso, lançados no fogo. Mas, outra vez, a promessa de Deus de proteger aqueles que lhe obedecem foi cumprida maravilhosamente e, quando estavam de pé no meio das chamas, uniu-se a eles um “como o Filho de Deus” (3.25 Kjv) que os livrou miraculosamente (3.1-30). Daniel, mais tarde, teve oportunidade de ajudar o rei, confuso com a interpretação de um sonho, cujo significado era que Nabucodonosor seria julgado por Deus por seu orgulho arrogante (4.1-37).

Um incidente importante na vida de um dos governantes que se seguiram, Belsazar, está registrado em seguida (5.1-31), e traz uma clara mensagem sobre a soberania e juízo de Deus. Depois vem a famosa história do reinado de Dario: Daniel na cova dos leões. A esse tempo Daniel já era bem conhecido no palácio e vários cortesãos, com ciúme de sua popularidade, determinaram colocar uma armadilha para ele. Decretou-se que nenhuma oração seria oferecida a qualquer divindade durante um mês - pedidos só seriam feitos ao rei. Com toda naturalidade, Daniel continuou a orar ao Senhor Deus, três vezes por dia, e ele foi lançado na cova dos leões como castigo (6.1-17). Uma vez mais, a história registra um livramento miraculoso (6.18-28). A fidelidade inabalável, a coragem espiritual de Daniel foi recompensada ricamente. É possível que estas grandes histórias tenham servido de imenso encorajamento espiritual durante a revolta dos macabeus, mais tarde, quando muitos judeus fiéis foram severamente perseguidos e testados por causa de sua fé. Em séculos posteriores também inspiraram milhares de cristãos dedicados e lhes deram novas forças e corajosa firmeza, especialmente em tempos difíceis.

2. Nova luz sobre o futuro (capítulos 7 a 12).

Em nosso estudo do Livro de Ester notamos a preocupação paternal de Deus com o indivíduo, bem como seu soberano controle sobre nações. De modo semelhante, o Livro de Daniel expõe esses dois temas. O amor providencial nas vidas de indivíduos está claramente ilustrado nos capítulos 1 a 6. A segunda metade do livro muda o cenário de problemas pessoais para assuntos mundiais. Em contraste com os primeiros seis capítulos, que tratam sobretudo de histórias, a segunda parte (capítulos 7 a 12) é quase que inteiramente dedicada a visões. Essas passagens descrevem uma série de sonhos que Daniel teve, e as cenas que se desdobram na história do mundo. Obviamente, esse tipo de literatura gera diferentes interpretações das visões, mas a impressão geral não é nem um pouco controvertida: Deus reina, ele está no controle do destino de impérios bem como de indivíduos.

Nesses capítulos, Daniel é nitidamente apresentado não só como um homem capacitado a ver o futuro, mas também como um homem de oração sincera (9.3-19). O capítulo final do livro retrata não o choque e conflito de potências mundiais sobre essa terra, mas sim o destino do homem (12.2), e nos lembra a importância de examinarmos nossos próprios corações, para ter certeza de que fazemos parte daqueles que, pela fé em Cristo como Salvador de suas vidas, estão “inscritos no Livro” (12.1), isto é, entre aqueles que são conhecidos por Deus como seus filhos. Estes são descritos como os “purificados, alvejados e refinados” (12.10), e em muitos lugares a Bíblia descreve como tal milagre é possível (SI 51.1-2, 7; Is 1.16; Ez 36.25-27; 1Jo 1.9).

Fonte: Entendendo o Antigo Testamento: esboço, mensagem e aplicação livro por livro - Raymond Brown.