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O Deus Triúno.



O Credo Apostólico e o Credo Niceno são divididos em três parágrafos que falam das três Pessoas da Trindade. Sem dúvida, a Trindade é o maior mistério da fé cristã. O termo em si é uma combinação do prefixo “tri” com a palavra “unidade”, e se refere ao fato de que Deus é tanto três quanto um: “Na unidade dessa Divindade há três Pessoas, uma só em substância, poder e eternidade, o Pai, o Filho e o Espírito Santo”. Certos pensadores ficam tão perplexos diante desse conceito que chegam ao ridículo. Thomas Jefferson, por exemplo, o gênio excêntrico que foi o terceiro presidente dos Estados Unidos, tentou reconstruir o cristianismo sem dogmas. Ele ansiava pelo dia, escreveu, em que “nos livraremos do jargão incompreensível da aritmética da Trindade, segundo o qual três são um, e um é três”. Uma das memórias mais vividas e constrangedoras que eu tenho dos meus tempos de escola é a de uma conversa que tive com um pastor que nos visitava. Eu tinha cerca de quinze anos.

Com a segurança imbatível característica de um adolescente, eu lhe disse: “Ninguém mais acredita na Trindade hoje em dia!” Mal acabara de dizer isso, e já me envergonhei de tê-lo feito. O fato é que eu nunca havia refletido sobre a questão da Trindade. Diante da impossibilidade de entendê-la, apressei-me a concluir que era uma superstição antiquada e burra que as pessoas inteligentes haviam descartado há muito tempo. E, talvez por ironia da providência divina, quando saí daquela escola fui justamente para a faculdade da Universidade de Cambridge que é dedicada à Santa Trindade! É verdade que a palavra “Trindade” não aparece na Bíblia e que essa doutrina não foi claramente formulada pelos Pais da Igreja até o terceiro e o quarto séculos. Mesmo assim o Novo Testamento é trinitário de ponta a ponta. Note-se, por exemplo, como Jesus, quando foi batizado antes de iniciar seu ministério público, ouviu a voz do Pai e viu o Espírito descendo sobre ele na forma de uma pomba; e como, depois de sua ressurreição, ele encarregou sua igreja de fazer discípulos e batizá-los no nome (singular) do Pai e do Filho e do Espírito Santo (Mateus 3.16-17; 28.19). Considere-se também a declaração de Pedro de que nós fomos “escolhidos "Creio em Deus Pai” de acordo com a presciência de Deus Pai, pela obra santificadora do Espírito, para a obediência a Jesus Cristo e a aspersão do seu sangue” (1 Pedro 1.2). E Paulo ora que “a graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo” estejam com todos nós (2 Coríntios 13.14). Existem três abordagens possíveis com relação à verdade da Trindade: a histórica, a teológica e a baseada na experiência. Juntas, elas constituem uma base sólida para a fé trinitária.

Em primeiro lugar, existe a abordagem histórica. A doutrina da Trindade não foi inventada por teólogos teóricos em torres de marfim, que nunca fizeram mais do que especular. Pelo contrário, foi uma revelação histórica que foi sendo desvendada aos poucos. Aconteceu assim. Os apóstolos eram todos judeus que haviam sido criados acreditando em um só Deus (em oposição ao politeísmo que os cercava), que era tanto o Criador do mundo como o Deus da aliança com Israel. Então eles conheceram Jesus. Ao passarem tempo na sua presença, ouvindo-o e observando-o, convenceram-se de que ele era o Messias - aliás, mais do que o Messias, pois perdoava os pecados das pessoas e até alegava ser o juiz do mundo. Instintivamente, eles se convenceram de que ele era digno de sua adoração - ou, em outras palavras, que ele era Deus. Só que não era o Pai, pois falava sobre o Pai e orava ao Pai. Então ele começou a lhes falar de alguém outro, a quem ele chamava de “o Consolador”, ou “o Espírito da verdade”, que tomaria o seu lugar depois que ele os deixasse; e ele de fato veio no Dia de Pentecostes com a plenitude da graça e com poder divino. Assim, foram os fatos de sua própria observação que os compeliram a acreditar na Trindade. Esses eventos históricos e essas experiências não lhes deixavam outra alternativa.

Em segundo lugar, existe a abordagem teológica. A principal dificuldade que os Pais da igreja primitiva sentiam era como conciliar a unidade de Deus com o fato de Jesus ser ao mesmo tempo divino e distinto do Pai. Ou seja, como podiam crer que Jesus era simultaneamente um ser divino e uma pessoa distinta do Pai, sem se comprometerem com dois Deuses? Afinal, os dois partiam da unicidade de Deus! “O Senhor nosso Deus é o único Senhor”, eles afirmavam (Deuteronômio 6.4). Eles nunca haviam questionado seu monoteísmo. Mas agora se dividiram. Alguns insistiam em afirmar a divindade de Jesus. Mas se Deus é único e Jesus é divino, e não podemos ter dois Deuses, então Jesus não podia ser distinto do Pai. Ele devia ser a mesma pessoa que o Pai, mas revelada uma maneira diferente, de modo que Deus foi primeiro o Pai, depois o Filho, e então o Espírito Santo. Estes eram os sabelianos (seguidores de Sabélio, um presbítero romano do “Creio em Deus Pai” terceiro século). O erro deles foi negar que Jesus e o Espírito eram eternamente distintos do Pai. Outros seguiram um caminho diferente. Eles concluíram que se Deus é único e Jesus é eternamente distinto do Pai, já que não podemos ter dois Deuses, então Jesus não podia ser completamente divino. Ele deve ter sido um ser criado muito superior, mas não Deus. Estes eram os arianos (que seguiam Ario, um presbítero de Alexandria do começo do século quarto). O erro deles foi negar que Jesus era divino. O problema dos Pais da Igreja, portanto, era como afirmar que Jesus era tanto divino quanto distinto, sem contradizer a unicidade de Deus. O professor Leonard Hodgson, no seu livro “A doutrina da Trindade” (The Doctrine of Trinity, 1943), aponta como causa da confusão dos Pais a sua incapacidade de definir a natureza da unidade de Deus. Afinal, existem dois tipos de unidade: a “matemática” (que é simples e indivisível) e a “orgânica” (que é altamente complexa e pode ser composta de muitas partes). Por exemplo, quando o átomo foi descoberto os cientistas primeiro pensaram ter alcançado a unidade básica da matéria, mas depois descobriram que cada átomo é em si mesmo um minúsculo universo. De semelhante modo, a unidade de Deus não é matemática, mas sim orgânica. Dentro do complexo mistério do Deus infinito existem três maneiras pessoais de ser que são eternamente distintas e que são reveladas no Pai, no Filho e no Espírito Santo.

Em terceiro lugar, podemos abordar o assunto a partir da experiência. Existem muitas coisas na vida que não podemos explicar completamente, mas mesmo assim podemos experimentar. Poderíamos mencionar a eletricidade, ou as mudanças de pressão barométrica, ou o amor... De semelhante modo, embora não consigamos explicar a Trindade, mesmo assim, toda vez que oramos desfrutamos o acesso ao Pai através do Filho por meio do Espírito Santo (Efésios 2.18). Mais especificamente, cada vez que oramos o Pai-Nosso, mesmo sem o perceber, estamos afirmando através das nossas três petições que Deus é três em Um: é o nosso Pai eterno que nos dá o pão de cada dia; é através de Jesus Cristo que morreu pelos nossos pecados que podemos ser perdoados; e é pelo poder interior do Espírito Santo que podemos vencer as tentações e ser livrados do mal. Então, que ninguém diga que a Trindade é irrelevante para o nosso dia-a-dia!

Fonte: Firmes na Fé - John Stott.

O Ministério de Cura de Jesus.

Jesus foi por toda a Galitéia, ensinando nas sinagogas deles, pregando as boas novas do Reino e curando todas as enfermidades e doenças entre o povo. Mateus 4 .2-3.

Os autores dos Evangelhos descrevem o ministério de Jesus como sendo triplo : ensino, pregação e cura. O ensino e a pregação não são difíceis de entender ou imitar. Mas como devemos compreender o ministério de cura?
Talvez possamos começar afirmando a excelência da criação de Deus. Isso para dizer que a doença não era parte da intenção original de Deus para o mundo, nem tampouco será parte de seu propósito final. No novo universo não haverá doença, nem dor, nem morte, nem lágrimas (Ap 21.4). Como a enfermidade e a morte são intrusos estranhos no mundo bom de Deus, médicos e enfermeiros estão certos em declarar guerra contra eles. Além disso, toda cura é divina, uma vez que Deus colocou no coração humano processos terapêuticos extraordinários. Por exemplo, tão logo uma infecção aparece, anticorpos são criados para combatê-la. É essa convicção que levou Ambroise Paré, o médico huguenote, a dizer: "Eu vesti a ferida, mas Deus a curou". As palavras estão inscritas na parede da École de Médicine em Paris.
Os Evangelhos deixam claro, no entanto, que o ministério de cura de Jesus pertenceu a uma ordem diferente. Assim como transformar água em vinho, multiplicar pães e peixes, e andar sobre as águas, as curas de Jesus foram demonstrações sobrenaturais do reino de Deus.
Ao tentar entendê-las, seremos sábios em evitar extremos opostos. Por um lado, seria absurdo colocar o Criador em uma camisa de força e declarar que milagres não podem acontecer e não acontecem. Por outro lado, não temos liberdade de dizer (como alguns dizem) que fazer milagres é normal na vida cristã. Seja como for que venhamos a defini-los, milagres certamente pertencem não à ordem natural, mas à ordem sobrenatural das coisas. Se afirmamos ser capazes de curar os enfermos como Jesus, precisamos nos lembrar de que ele curou sem uso de meios médicos nem cirúrgicos, sem demora, sem diploma e sem moderação, mas imediata, completa e permanentemente, e que mesmo testemunhas oculares que lhe eram hostis disseram: "Não podemos negar" (At 4.16).
Para saber mais: Atos 4.8-16

Fonte: A Bíblia Toda, O Ano Todo - John Stott.

O Sermão do Monte por Leon Tolstói, Mahatma Gandhi, Martin Luther King Jr. e John Stott.

O desafio da não-resistência
Todos os que conhecem um pouco o cristianismo têm alguma noção do Sermão do Monte, proferido por Jesus provavelmente durante um longo período de instrução. A maioria das pessoas também sabe que ele contém a proibição “Não resistam ao perverso” e a ordem “Amem os seus inimigos” (Mt 5.39, 44). Não só isso, mas Jesus praticava o que pregava. Como escreveu o apóstolo Pedro, “Quando insultado, não revidava; quando sofria, não fazia ameaças” (1 Pe 2.23). Antes, orou pedindo que Deus perdoasse aqueles que o estavam crucificando (Lc 23.34).
Gerações, tanto de cristãos como de não-cristãos, têm sido desafiadas e inspiradas pela combinação sermão e exemplo, palavras e atos de Jesus - sua persistência e autocontrole, seu amor pelos inimigos e sua total isenção do espírito de vingança. Os reformadores radicais do século XVI (vários grupos anabatistas) e as igrejas pacifistas de hoje (e.g. os menonitas, quacres e irmãos unidos) dedicam-se ao pacifismo total, recebendo o mandato e a motivação do Sermão do Monte e do sofrimento de Jesus, conforme exemplificou em seu comportamento.
Meu objetivo neste capítulo é considerar três líderes do fim do século XIX ou início do século XX que confessaram ter recebido inspiração do sermão e do sofrimento de Jesus, a saber, o romancista russo, Leon Tolstói (1828-1910); o reformador social da índia; Mahatma Gandhi (1869-1948) e o defensor americano dos direitos civis, Martin Luther King Jr.(1929-1968).
Tolstói nasceu num lar aristocrático, teve uma juventude dissoluta e depois voltou-se para a escrita séria. Seus romances mais conhecidos continuam sendo Guerra e Paz e Anna Karênina, mas para nossos interesses precisamos considerar sua obra curta, Minha Confissão. Nela Tolstói descreve como num momento de crise pessoal ele releu o Sermão do Monte e, de repente, compreendeu (diz ele) o que a igreja inteira não havia compreendido em 1.800 anos.
Isso era o que Jesus queria dizer quando convocou seus seguidores para a não-resistência. É impossível crer em Cristo, continuou, e ao mesmo tempo “trabalhar pelo estabelecimento de propriedades, cortes legais, governos e forças militares...”, porque a polícia, as cortes e o exército usam, todos, a violência para resistir ao mal e são, portanto, incompatíveis com a lei do amor. Se tão somente os mandamentos de Cristo forem obedecidos literalmente, “todos os homens serão irmãos e todos estarão em paz uns com os outros”. Então, no último capítulo, defendendo-se contra a credulidade, trai seu conceito ingênuo de que todos os seres humanos são basicamente bons, racionais e amigáveis.
Mahatma Gandhi,ou “Gandhiji”, como referem-se respeitosamente a ele os indianos, é, claro, o pai da índia moderna. Tendo estudado Direito  em Londres e o praticado na África do Sul, onde foi insultado por causa de sua cor, Gandhi voltou à índia em 1914 e liderou a Campanha de Desobediência Civil. Ele ansiava por uma índia livre do colonialismo, do materialismo e das castas.
Ainda criança, Gandhi aprendeu a respeito da ahimsa, “abster-se de ferir os outros”. Mas depois, na juventude em Londres, leu o clássico hindu, o Baghavad Gita, e o Sermão do Monte. “É esse Sermão que me fez gostar de Jesus”, disse, e sabe-se que refletia constantemente sobre ele, em especial através dos olhos de Tolstói. Na África do Sul leu O Reino de Deus está dentro de ti, de Tolstói, foi profundamente tocado por ele e, ao voltar para a índia, resolveu colocar em ação seus ideais. Ele descrevia seus meios de ação como satyagraha, sua melhor tradução seria “força da verdade”, a tentativa de conquistar os oponentes pelo poder da verdade e “pelo exemplo do sofrimento suportado voluntariamente”. “O estado representa a violência numa forma concentrada e organizada”, dizia. Assim, no estado perfeito que ele vislumbrava, a polícia ainda existiriam mas raramente usaria a força; a punição acabaria; as prisões seriam transformadas em escolas e o litígio seria substituído pela arbitragem. Em tudo isso Gandhi encontrava inspiração em Jesus, “embora não possa afirmar que eu seja cristão no sentido sectário”, disse, “o exemplo dos sofrimentos de Jesus é um fator na composição de minha fé imorredoura na não-violência que dirige todos os meus atos...”.
É impossível não admirar a humildade e sinceridade de Gandhi. Ainda assim, sua política certamente deve ser julgada irrealista. Ele disse que resistiria com uma “brigada de paz” aos invasores japoneses que se prenunciavam; ele instava os judeus a oferecerem resistência não violenta a Hider; e apelava aos britânicos para que parassem com as hostilidades. Mas, conforme comentou Jacques Ellul, Gandhi não havia considerado o contexto. “Ponha Gandhi na Rússia de 1925 ou na Alemanha de 1933. A solução seria simples: depois de alguns dias ele seria preso e nada mais se ouviria dele”.
Mas nosso maior desacordo com Tolstói e Gandhi, porém, não deve ser pelo fato de a posição deles ser irrealista, mas por não ser bíblica. Não podemos interpretar a ordem de não resistir ao mal, dada por Jesus, como uma proibição absoluta do uso da força (incluindo-se a polícia), a menos que estejamos dispostos a dizer que a Bíblia contradiz a si mesma e que os apóstolos não compreenderam Jesus. Ora, a Bíblia ensina (por exemplo, em Rm 13) que o estado possui autoridade divina para punir o malfeitor, ou seja, a “resistir ao perverso”, forçando-o a arcar com a penalidade de seu mal. Essa verdade não pode ser torcida, porém, para justificar a violência institucionalizada de um regime opressivo. Ela só justifica a “mínima força necessária” para deter malfeitores e os levar à justiça.
Fica claro, portanto, que a responsabilidade do estado é bem diferente da responsabilidade dos indivíduos. Em Romanos 12.17, se diz “não retribuam a ninguém mal por mal” (decerto um eco de “não resistam ao perverso”) e também “nunca procurem vingar-se, mas deixem com Deus a ira, pois está escrito: ‘Minha é a vingança; eu retribuirei’, diz o Senhor”. Em outras palavras, a punição é prerrogativa de Deus, e ele a exerce por meio das cortes judiciais, conforme Paulo segue escrevendo em Romanos 13.4, ou seja, que a autoridade (um representante devidamente autorizado do estado) “é serva de Deus, agente da justiça para punir quem pratica o mal”. Isso não é incompatível com o ensino e a conduta de Jesus. Ele foi enfaticamente contra a retaliação, antes, “entregava-se àquele que julga com justiça” (1 Pe 2.23). Para resumir essa antítese, Jesus não estava proibindo a administração da justiça, mas impedindo-nos de tomar a lei nas próprias mãos e obrigando-nos, pelo contrário, a amar nossos inimigos e a ser totalmente isentos de maldade e retaliação. Conforme se costuma dizer, a receita do diabo é retribuir o bem com o mal; a receita do mundo é retribuir o mal com o mal e o bem com o bem; a receita de Cristo é vencer o mal com o bem (Ro 12.21).
Uma pessoa que compreendeu essa distinção foi Martin Luther King Jr. Ele havia aprendido de Gandhi tanto quanto este havia aprendido de Tolstói, embora eu pense que ele compreendia o ensino de Jesus melhor que ambos. Fundador da Conferência de Liderança Cristã do Sul, dedicava-se à não-violência e liderou a famosa marcha a Washington em 1963, a que se seguiram em 1964 e 1965 os Decretos dos Direitos Civis. Por um lado, Luther King com frequência reconhecia sua dívida para com o Sermão do Monte. Por outro, ele reconhecia a necessidade da legislação, até de leis coativas, para de algum modo banir a discriminação racial.
Um dos sermões mais eloquentes de King, intitulado “Amar seus inimigos”, foi composto numa cela na Geórgia. Ele descrevia como “o ódio multiplica o ódio ... numa espiral descendente de destruição” e é “tão injurioso para a pessoa que odeia” quanto para sua vítima. O amor, porém, “é a única força capaz de transformar um inimigo em amigo”. Ele prosseguia aplicando esse tema à crise racial nos Estados Unidos. Por mais de três séculos os afro-americanos haviam sofrido opressão, frustração e discriminação. Mas King e seus amigos estavam decididos a “rebater o ódio com o amor”. Com isso conquistariam a liberdade e também venceriam seus opressores, “e nossa vitória será dupla”.

Fonte: John Stott - O Incomparável Cristo.

Seis aspectos do evangelho são dignos de nota - 1 Co 15.1-5

1.     0 evangelho é cristológico. O centro da mensagem cristã é que "Cristo morreu pelos nossos pecados...[e] ressuscitou ao terceiro dia". 0 evangelho não está limitado a estes acontecimentos, mas eles são sua verdade prioritária, a primeira coisa que ele recebeu e que tem o cuidado de transmitir (versículo 3). 0 evangelho não pode ser pregado se Cristo não for pregado, e o Cristo autêntico não é proclamado se sua morte e ressurreição não forem centrais.
2.     0 evangelho é bíblico. 0 Cristo que Paulo proclamava era o Cristo bíblico, que morreu por nossos pecados "segundo as Escrituras" (versículo 3). Que "Escrituras" do Antigo Testamento Paulo tinha em mente, isso ele não diz aqui; mas sem dúvida elas teriam incluído aquelas que Jesus usou quando "explicou-lhes o que constava a respeito dele em todas as Escrituras" (Lc 2425-27; 44-46), as que Pedro usou no dia de Pentecostes (At 2.25-31), e notadamente o Salmo 22 e Isaías 53. Para os primeiros evangelistas cristãos, era de suma importância o fato de que a morte e a ressurreição de Jesus foram confirmadas por duas testemunhas: os profetas e os apóstolos ou, como diríamos, o Antigo Testamento e o Novo Testamento.
3.     O evangelho é histórico. Precisamos notar as referências, tanto ao sepultamento de Jesus como às suas aparições, pois o sepultamento atestava a realidade da sua morte (já que enterramos os mortos, não os vivos), enquanto que as aparições testificavam da realidade da sua ressurreição. Além do mais, o que re-surgiu é aquilo que foi escondido, enterrado. Em outras palavras, o que foi ressuscitado e transformado foi o corpo de Cristo. Além disso, a ressurreição é um evento histórico possível de ser datado, uma vez que ela ocorreu "no terceiro dia".
4.     0 evangelho é teológico. A morte e a ressurreição de Jesus não foram apenas acontecimentos históricos; elas têm um significado teológico ou resgatador. Ele não apenas morreu, mas "morreu pelos nossos pecados". Como pecado e morte estão relacionados um com o outro no decorrer das Escrituras como sendo uma ofensa e sua devida recompensa, e como Jesus mesmo não cometeu pecado algum pelo qual necessitasse morrer, ele deve ter morrido por nossos pecados. Os pecados eram nossos, mas a morte foi dele. Ele morreu a nossa morte. Ele sofreu nosso castigo. Só assim poderíamos "ser salvos" (versículo 2). Isso aponta claramente para a natureza substitutiva da cruz.
5.     0 evangelho é apostólico. Isso significa que é uma parte essencial da mensagem autêntica recebida e transmitida pelos apóstolos. Faz parte da tradição apostólica. No versículo 11 Paulo conclui: "Portanto, quer tenha sido eu, quer tenham sido eles, é isto que pregamos, e é isto que vocês creram". Esse amontoado de pronomes pessoais (eu, eles, nós, vocês) é deveras impressionante. Indica uma unidade de fé entre Paulo e os Doze, e entre os apóstolos e a igreja, até mesmo entre a primeira geração de crentes e todas as subseqüentes.
6.     0 evangelho é pessoal. Isto é, a morte e a ressurreição de Jesus não são apenas história e teologia, mas são o caminho da salvação individual. Os coríntios o receberam, decidiram-se por ele e foram salvos por ele, conquanto se mantivessem firmemente apegados a ele (versículos 1-2).

Fonte:John Stott – A Verdade do Evangelho.

UM BREVE PANORAMA DE ROMANOS - part 2

O plano de Deus (9-11)
Durante a primeira parte de sua carta Paulo não esqueceu, nem a mistura étnica da igreja romana, nem as tensões que sempre vinham à tona entre a minoria, composta de cristãos judeus, e a maioria, composta de gentios. Agora chegou a hora de ele encarar de frente o problema teológico que subjaz a questão. Como é que o povo judeu, como um todo, havia rejeitado o seu Messias? Como conciliar a incredulidade deles com a aliança e as promessas de Deus? O impressionante é que cada um destes três capítulos começa com uma emocionante declaração de amor de Paulo por Israel — sua angústia por causa da alienação deles (9.lss.), seu anseio por sua salvação (10.1) e o fato de ele mesmo continuar sendo judeu (11.1).
No capítulo 9 Paulo defende a fidelidade da aliança de Deus. Ele fundamenta sua defesa dizendo que as promessas de Deus não se destinavam a todos os descendentes de Jacó, mas sim a "um Israel dentro de Israel", um remanescente, uma vez que ele sempre agiu de conformidade com o seu "propósito conforme a eleição" (11). Isto se pode ver não apenas no fato de Deus haver escolhido Isaque ao invés de Ismael, e Jacó em vez de Esaú, mas também no fato de ele ter tido misericórdia de Moisés e, ao mesmo tempo, endurecido o coração de Faraó (14-18) — se bem que isso foi um castigo decorrente do endurecimento propositado de seu próprio coração. Se essa questão da eleição ainda nos traz problemas, é bom lembrarmos que o ser humano nunca deveria questionar a Deus (19-21), que a Deus cabe o direito de ser Deus em sua decisão de tornar conhecido seu poder e misericórdia (22-23) e que a própria Escritura profetizou o chamado, tanto dos gentios como dos judeus, para serem povo de Deus (24-29).
Desde o final do capítulo 9 e no decorrer do capítulo 10, porém, ficou evidente que a incredulidade de Israel não pode ser explicada simplesmente pelo propósito de Deus conforme a eleição. Pois Paulo passa a afirmar que Israel "tropeçou na pedra de tropeço", a saber, Cristo e sua cruz. Com isso ele está acusando Israel de recusar orgulhosamente submeter-se ao caminho de salvação proposto por Deus, bem como de um zelo religioso que não era baseado no conhecimento (9.30—10.4). Paulo passa a contrastar "a justiça que é pela lei" com "a justiça que é pela fé", e enfatiza, valendo-se com muita habilidade de Deuteronômio 30, o acesso imediato a Cristo que temos por meio da fé. Ninguém precisa sair por aí à procura de Cristo, uma vez que ele já veio, morreu e ressurgiu e está perto de qualquer um que invoque o seu nome (5-11). Além disso, neste particular não há qualquer diferença entre judeus e gentios, já que o mesmo Senhor é o Senhor de todos e abençoa ricamente todos aqueles que o invocam (12-13). Para isso, no entanto, é necessário evangelizar (14-15). Mas então, por que Israel não aceitou a boa nova? Não foi por não ter ouvido ou entendido. Mas então, por quê? É que Deus ficou o tempo todo de mãos estendidas para recebê-los, mas eles foram "desobedientes e obstinados" (16-21). Portanto, a incredulidade de Israel, que em Romanos 9 se atribui ao propósito de Deus conforme a eleição, em Romanos 10 é atribuída ao orgulho de Israel, bem como a sua ignorância e obstinação. A tensão entre a soberania divina e a responsabilidade humana constitui-se em uma antinomia que a mente finita não consegue compreender.
A partir do capítulo 11 Paulo volta-se para o futuro. Ele declara que o fracasso de Israel não é total (já que existe um remanescente fiel, 1-10) nem final (uma vez que Deus não rejeitou o seu povo e este há de se recobrar, v. 11). Se por meio da transgressão de Israel veio a salvação para os gentios, agora, através da salvação dos gentios, Israel será movido pelo ciúme (12). Na verdade, o ministério de evangelização de Paulo consiste em despertar ciúmes em seu próprio povo, a fim de salvar alguns deles (13-14). E então a "plenitude" de Israel haverá de trazer "riquezas muito maiores" para o mundo. Paulo prossegue apresentando a sua alegoria da oliveira, a partir da qual ensina duas lições. A primeira é uma advertência para que os gentios (o ramo de oliveira brava que foi enxertado na oliveira) não se tornem presunçosos ou arrogantes (17-22). E a segunda é uma promessa a Israel (os ramos naturais) de que, se eles não persistirem na incredulidade, serão novamente enxertados na oliveira (23-24). A visão de Paulo para o futuro, que ele chama de "mistério" ou "revelação", é que quando vier a plenitude dos gentios, também "todo o Israel será salvo" (25-27). E o que fundamenta essa certeza é o fato de que "os dons e o chamado de Deus são irrevogáveis" (29). Assim nós podemos aguardar com toda confiança que venha a "plenitude", tanto para os judeus como para os gentios (12, 25). Com efeito, Deus terá "misericórdia para com todos" (32), o que significa, não todo mundo sem exceção, mas sim judeus e gentios sem distinção. Não é de estranhar, portanto, que essa expectativa leve Paulo a prorromper numa doxologia em que ele exalta a Deus pela profundidade das suas riquezas e da sua sabedoria (33-36).
A vontade de Deus (12.1—15.13)
Chamando os cristãos de Roma de "irmãos" (uma vez que as antigas distinções étnicas já foram abolidas), agora Paulo lhes dirige um eloqüente apelo, baseado nas "misericórdias de Deus" que ele vem expondo. Depois convoca-os à consagração dos seus corpos e à renovação de suas mentes. Ele coloca diante deles uma dura alternativa, com a qual o povo de Deus se confronta em todo tempo e em todo lugar: ou eles se amoldam aos padrões deste mundo, ou se deixam transformar por mentes renovadas que saibam discernir a "boa, perfeita e agradável vontade de Deus". É uma escolha entre os padrões do mundo e a vontade de Deus.
Nos capítulos seguintes o autor deixa claro que a boa vontade de Deus tem implicações em nossos relacionamentos, que são radicalmente transformados pelo evangelho. Paulo aborda oito deles: a nossa relação com Deus, com nós mesmos, uns com os outros, com os inimigos, com o Estado, com a lei, com o dia do juízo final e com os "fracos". Além disso, nossa mente renovada, que agora busca a vontade de Deus (1-2), leva-nos a um novo padrão de avaliação; nosso conceito de nós mesmos e dos nossos dons trará a marca da moderação, do equilíbrio, não alimentando sobre a nossa pessoa uma opinião elevada demais, nem inferior ao que ela de fato é (3-8). Nossa relação uns com os outros será uma conseqüência natural do exercício dos ministérios mútuos que os nossos dons possibilitam. O amor que une os membros da família cristã há de incluir sinceridade, afeição, honra, paciência, hospitalidade, simpatia, harmonia e humildade (9-16).
A seguir vem o nosso relacionamento com os nossos inimigos ou com os malfeitores (17-21). Fazendo eco aos ensinos de Jesus, Paulo escreve que nós não devemos retaliar ou vingar-nos; já que punir o mal é prerrogativa de Deus, deixemos que ele o faça; entrementes, devemos procurar a paz, servir aos nossos inimigos e vencer o mal com o bem. É possível que a questão da nossa relação com as autoridades governamentais (13.1-7) tenha vindo à mente de Paulo por causa de sua referência à ira de Deus (12.19). Se a punição do mal é uma prerrogativa de Deus, uma das maneiras pelas quais ele o faz é através da administração da justiça pelo Estado, já que o magistrado é "ministro" de Deus para punir o malfeitor. O Estado tem também um papel positivo de promover e recompensar o bem na comunidade. Entretanto, nossa submissão às autoridades certamente não é incondicional. Se o Estado fizer mau uso da autoridade que lhe é conferida por Deus, para ordenar aquilo que Deus proíbe ou para proibir aquilo que Deus ordena, nosso dever de cristãos é claramente desobedecer-lhe a fim de obedecer a Deus.
Os versículos 8-10 voltam-se para o amor e ensinam que amar o nosso próximo é, ao mesmo tempo, uma dívida não paga e o cumprimento da lei. Pois, embora não estejamos "debaixo da lei", no sentido de que dependemos de Cristo para sermos justificados e do Espírito Santo para sermos santificados, ainda assim somos chamados a "cumprir a lei", obedecendo dia a dia aos mandamentos de Deus. Neste sentido não podemos contrapor o Espírito e a lei, uma vez que é o Espírito Santo que escreve a lei em nossos corações. E esta primazia do amor torna-se ainda mais urgente na medida em que se aproxima o dia da volta de Cristo. Nós temos de acordar, levantar-nos, vestir-nos e viver como quem faz parte desse dia (11-14).
Nosso relacionamento com os "fracos" é a parte que mais atenção recebe da parte de Paulo (14.1—15.13). Estes são, evidentemente, fracos na fé ou na convicção, e não fracos de vontade ou de caráter. O mais provável é que se trate de cristãos judeus que acreditavam que ainda tinham de continuar observando as leis, tanto as referentes à comida (o que é puro, o que é impuro) como as festas e jejuns que faziam parte do calendário judaico. O próprio Paulo identifica-se como um dos "fortes". Sua consciência educada lhe diz que alimentos e dias são coisas secundárias. Recusa-se, porém, a atropelar a consciência sensível daquele que é fraco. Sua exortação para a igreja em geral é que os irmãos "aceitem" os fracos assim como Deus os aceitou (14.1, 3) e que "aceitem-se uns aos outros" assim como Cristo o fez (15.7). Se eles aceitarem os fracos em seus corações e em sua comunhão, não irão desprezá-los nem prejudicá-los, forçando-os a irem de encontro a suas consciências.
A característica mais marcante dessas instruções práticas é que Paulo as fundamenta em sua cristologia, e em particular na morte, ressurreição e volta de Jesus. Os fracos são irmãos e irmãs por quem Cristo morreu. Cristo ressuscitou para ser seu Senhor e nós não temos o mínimo direito de interferir na vida dos servos de Jesus. De semelhante modo, ele virá para nos julgar; portanto, não devemos arvorar-nos juízes dos outros. Além do mais, temos de seguir o exemplo de Cristo, que não agradou a si mesmo mas tornou-se servo — e que, aliás, serviu tanto a judeus como a gentios. Assim Paulo deixa aos seus leitores essa belíssima visão quanto aos fracos e os fortes, quanto a crentes judeus e crentes gentios, que estão unidos uns aos outros por um "espírito de unidade" tão forte que "com um só coração e uma só boca" podem glorificar a Deus juntos (15.5-6). Para concluir, Paulo descreve o seu ministério de "apóstolo dos gentios", juntamente com sua política de pregar o evangelho apenas onde Cristo ainda não for conhecido (15.14-22); compartilha com eles os seus planos de viagem, que incluem visitá-los quando de passagem para a Espanha, mas só depois de ter levado para Jerusalém a coleta como símbolo da solidariedade entre judeus e gentios (15.23-29); e solicita as orações deles (15.30-33). E então recomenda-lhes Febe, que é presumivelmente a portadora da carta que ele envia a Roma (16.1-2); envia saudações a vinte e seis pessoas, citando-as uma por uma pelo nome (16.3-16) — homens e mulheres, escravos e livres, judeus e gentios, o que nos dá uma idéia da extraordinária "unidade na diversidade" desfrutada pela igreja de Roma; adverte-os contra os falsos mestres (16.17-20); envia recados de oito pessoas que se encontram com ele em Corinto (16.21-24); e depois expressa a sua doxologia final. Embora a sintaxe da doxologia seja um pouco complexa, seu conteúdo é maravilhoso. Ele capacita o apóstolo a terminar lá onde começou (1.1-5), uma vez que tanto a introdução da carta como a sua conclusão fazem referência ao evangelho de Cristo, à vocação de Deus, ao alcance de todas as nações e à convocação à obediência pela fé.
Fonte: John Stott – A Mensagem de Romanos



UM BREVE PANORAMA DE ROMANOS - part 1

Os dois temas principais de Paulo - a integridade do evangelho que lhe foi confiado e a solidariedade dos judeus e gentios na comunidade messiânica - já ficam evidentes na primeira parte do primeiro capítulo da carta.
Paulo chama a boa nova de "o evangelho de Deus" (1) por ser Deus o seu autor, e de "o evangelho de seu Filho" (9) por ser Jesus a sua essência. Nos versículos 1 a 5 ele enfoca a pessoa de Jesus Cristo, filho de Davi por descendência e poderosamente declarado Filho de Deus por meio da ressurreição. No versículo 16 ele concentra-se na obra desse Jesus; uma vez que o evangelho é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, "primeiro do judeu, depois do grego".
Entre estas sucintas declarações acerca do evangelho, Paulo tenta estabelecer uma relação pessoal com os seus leitores. Ele escreve para "todos que em Roma são amados de Deus e chamados para serem santos" (7), independente da etnia, embora saiba que a maioria deles é constituída de gentios (13). Agradece a Deus por todos eles, ora por eles constantemente, anseia vê-los, já tentou visitá-los muitas vezes (até aqui, sem sucesso) (8-13). Sente-se na obrigação de anunciar o evangelho na capital do mundo da época. De fato, está ansioso por fazê-lo, uma vez que no evangelho está revelada a maneira como Deus, em sua justiça, "justifica" o injusto (14-17).
A ira de Deus (1.18—3.20)
A revelação da justiça de Deus no evangelho é necessária em virtude da revelação de sua ira contra toda injustiça (18). A ira de Deus, seu puro e perfeito antagonismo com o mal, volta-se contra todos aqueles que deliberadamente suprimem aquilo que sabem ser a verdade e o certo, a fim de seguirem os seus próprios caminhos. Pois todo mundo tem algum conhecimento de Deus e de sua bondade, seja por meio das coisas criadas (19s.), ou através da consciência (32), ou porque as exigências da lei estão gravadas no coração humano (2.l2ss.), ou através da lei de Moisés que foi confiada aos judeus (2.l7ss.).
Assim o apóstolo divide a raça humana em três grupos distintos: a sociedade gentílica depravada (1.18-32), os críticos moralistas, sejam judeus ou gentios (2.1-16), e os judeus instruídos e autoconfiantes (2.17—3.8). E então conclui acusando toda a raça humana (3.9-20). Em cada caso o seu argumento é o mesmo: que ninguém vive à altura do conhecimento que tem. Nem mesmo os privilégios especiais dos judeus os isentam do juízo divino. Não! "Tanto judeus quanto gentios estão debaixo do pecado" (3.9), "Pois em Deus não há parcialidade" (2.11). Todos os seres humanos são pecadores, culpados e indesculpáveis diante de Deus. O quadro que ele apresenta é de completa escuridão.
A graça de Deus (3.21—8.39)
O "Mas agora" de 3.21 é um dos maiores adversativos encontrados na Bíblia, pois denota que em meio à treva universal do pecado e da culpabilidade humana brilhou a luz do evangelho. Uma vez mais Paulo a chama de "a justiça de (ou, que provém de) Deus" (como em 1.17), ou seja, sua justa justificação do injusto. Isso só é possível por meio da cruz, na qual Deus demonstrou sua justiça (3.25s.), como também seu amor (5.8), e que está à disposição de "todos os que crêem" (3.22), sejam eles judeus ou gentios. Ao explanar sobre a cruz, Paulo recorre a palavras-chaves como "propiciação", "redenção" e "justificação". E então, em resposta às objeções dos judeus (3.27-31), ele argumenta que, já que a justificação só é possível através da fé, ninguém pode se vangloriar diante de Deus; de igual forma, não pode haver qualquer discriminação entre judeus e gentios e a lei não pode ser negligenciada.
Romanos 4 é um brilhante ensaio no qual Paulo prova que o próprio Abraão, o pai fundador de Israel, foi justificado, não por suas obras (4-8), nem pela sua circuncisão (9-12), nem pela lei (13-15), mas pela fé. Em conseqüência, Abraão é agora "o pai de todos os que crêem", sejam eles judeus ou gentios (11, 16-25). A imparcialidade divina é evidente.
Depois de mostrar que até os ímpios Deus justifica pela fé (4.5), Paulo afirma as grandes bênçãos desfrutadas pelos que são justificados (5.1-11). Tendo sido, pois, justificados pela fé, começa ele, nós temos paz com Deus, estamos firmes em sua graça e nos regozijamos na perspectiva de ver e compartilhar da sua glória. Nem o sofrimento pode abalar a nossa confiança, por causa do amor de Deus que ele derramou em nossos corações através de seu Espírito (5) e que foi provado na cruz por intermédio de seu Filho (8). Em virtude do que Deus já fez por nós, ousamos dizer que "seremos salvos" no dia do juízo final (9-10).
Duas comunidades humanas são retratadas aqui, uma caracterizada pelo pecado e pela culpa e a outra pela graça e pela fé. O cabeça da velha comunidade é Adão e o cabeça da nova comu¬nidade é Cristo. E assim, com uma precisão quase matemática, Paulo compara e contrasta as duas (5.12-21). A comparação é simples. Em ambos os casos, o que um único homem fez afetou um enorme número de pessoas. O contraste, no entanto, é muito mais significativo. Enquanto a desobediência de Adão trouxe condenação e morte, a obediência de Cristo trouxe justificação e vida. Na verdade, a obra salvadora de Cristo acabará sendo muito mais bem-sucedida do que a obra destruidor a de Adão.
No meio dessa antítese entre Adão e Cristo, Paulo introduz Moisés: "A lei foi introduzida para que a transgressão
Duas vezes em Romanos 6 (versículos 1 e 15) ouvimos os críticos de Paulo insinuando que ele estaria dizendo que nós podemos continuar pecando para que a graça de Deus continue perdoando. Ambas às vezes Paulo responde com um furioso "De maneira nenhuma!". Se um cristão chega ao ponto de fazer tal pergunta, é porque nunca entendeu o significado do seu batismo (1-14), nem o da sua conversão (15-23). Será que eles não sabiam que o seu batismo significou união com Cristo em sua morte e que a morte de Cristo foi uma "morte para o pecado" (ir ao encontro de suas demandas, pagando a sua penalidade) e que eles haviam participado também em sua ressurreição? Pela união com Cristo eles mesmos estavam "mortos para o pecado e vivos para Deus". Como, então, podiam continuar vivendo naquilo para o qual já haviam morrido? Com a conversão ocorria a mesma coisa. Eles já não haviam tomado o passo decisivo de oferecer-se a Deus como seus escravos? Então, como podiam sequer considerar a possibilidade de voltarem a sujeitar-se ao pecado? Tanto nosso batismo como nossa conversão fecharam a porta para a velha vida e abriram caminho para uma vida nova. Não que nos seja impossível voltar; só que isto seria inconcebível. A graça, longe de incentivar o pecado, proíbe a sua prática.
Outra preocupação dos críticos de Paulo era quanto ao que ele ensinava com referência à lei. E é isso que ele esclarece no capítulo 7 de Romanos, apresentando três argumentos. Primeiro (1-6), os cristãos "morreram para a lei" em Cristo, da mesma forma que "morreram para o pecado". Conseqüentemente, foram "libertados" da lei, isto é, da sua condenação, e agora estão livres — não para pecar, mas para servir no "novo modo do Espírito" (7-13). Segundo, escrevendo (creio eu) a partir de seu próprio passado (7-13), Paulo argumenta que, embora a lei revele, provoque e condene o pecado, ela não é responsável pelo pecado ou pela morte. Pelo contrário, a lei é santa. Paulo exonera a lei.
Em terceiro lugar (14-25) o apóstolo descreve em termos muito vividos uma penosa e constante luta moral interior. Se o "miserável homem" que clama por libertação é um cristão regenerado ou um não-regenerado (minha posição é uma terceira), e se trata do próprio Paulo ou de alguém que ele está personificando, isso não importa; o seu propósito nesta passagem é demonstrar a fragilidade da lei. Sua derrota deve-se, não à lei (que é santa), nem mesmo ao seu próprio eu, mas sim ao "pecado que habita em mim" (17, 20); e isto a lei não tem poder algum de controlar. Mas agora (8.1-4) Deus fez através do seu Filho e do Espírito aquilo que a lei, enfraquecida pela nossa natureza pecaminosa, fora incapaz de fazer. E a solução para o pecado que habita em nós é o Espírito vir habitar em nós (8.9); esse Espírito não tinha sido mencionado no capítulo 7, à exceção do versículo 6. Assim, para alcançarmos tanto a justificação como a santificação, nós "não estamos sob o domínio da lei, mas debaixo da graça".
Assim como a lei perpassa todo o capítulo 7 de Romanos, o capítulo 8 está cheio de referências ao Espírito. Durante a primeira parte do capítulo Paulo descreve alguns dos diversos ministérios do Espírito Santo — livrar-nos, habitar em nós, dar-nos vida, proporcionar-nos domínio próprio, testemunhar com o nosso espírito que nós somos filhos de Deus, e interceder por nós. O fato de nós sermos filhos de Deus leva Paulo a lembrar que somos, em conseqüência, também herdeiros de Deus, e que o sofrimento é o único caminho para a glória. Então ele traça um paralelo entre os sofrimentos e a glória da criação de Deus e os sofrimentos e a glória dos filhos de Deus. Até aqui a criação tem sido submetida à frustração e à futilidade, escreve. Mas um dia ela será libertada dessa escravidão. Entrementes, a criação geme como se tivesse dores de parto, e nós gememos com ela. Nós, da mesma forma, aguardamos com ansiedade, mas também com paciente expectativa, a redenção final do universo, inclusive dos nossos corpos.
Nos últimos doze versículos de Romanos 8 o apóstolo atinge as sublimes alturas da confiança cristã. Ele expressa cinco convicções acerca de como Deus age para o nosso bem, isto é, para a nossa salvação final (28). Esboça cinco estágios do propósito de Deus, desde uma eternidade passada até uma eternidade futura (29-30). E lança, em forma de desafio, cinco perguntas para as quais não existe resposta. E assim nos fortalece com quinze certezas referentes ao inabalável amor de Deus, do qual nada jamais conseguirá nos separar.
Fonte: John Stott – A Mensagem de Romanos

A IMAGEM DE DEUS

Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou.
GÊNESIS 1.27
O clímax da atividade criativa de Deus foi o aparecimento dos seres humanos, e a forma como o Gênesis expressa este clímax é descrevendo-os como tendo sido criados “à imagem de Deus”. Porém, os estudiosos não conseguem chegar a um consenso em relação ao significado da imagem divina nos seres humanos.
Alguns consideram que ela significa que os seres humanos são representantes de Deus, exercendo domínio sobre o restante da criação em seu lugar. Outros concluem que a imagem de Deus se refere ao relacionamento especial estabelecido entre Deus e os homens. Mas, se observarmos esta expressão tanto no contexto imediato de Gênesis quanto na perspectiva mais abrangente das Escrituras, parece ficar claro que ela se refere a todas aquelas qualidades ou capacidades humanas que nos diferenciam dos animais e nos aproximam de Deus. Quais são essas qualidades?
A primeira delas é que, como seres humanos, somos racionais e temos consciência de nós mesmos. A segunda é que somos seres morais; temos uma consciência que nos conclama a fazer o que percebemos como certo. A terceira é que somos criativos, tal como o nosso Criador, capazes de apreciar aquilo que é belo aos ouvidos e aos olhos. A quarta é que somos seres sociais, capazes de estabelecer com outras pessoas relacionamentos verdadeiros de amor, pois Deus é amor e, ao nos fazer à sua imagem, ele nos deu a capacidade de amá-lo e de amar aos outros. Por último, temos uma capacidade espiritual que nos faz sentir fome de Deus. Assim, somos os únicos seres capazes de pensar, escolher, criar, amar e adorar.
Infelizmente, precisamos acrescentar que a imagem de Deus em nós foi desfigurada, do mesmo modo que nossa humanidade foi contaminada pelo egocentrismo. A imagem de Deus, no entanto, não foi destruída. Pelo contrário, tanto o Antigo quanto o Novo Testamento afirmam que os seres humanos ainda carregam em si a imagem de Deus e por essa razão devemos respeitá-los. O caráter sagrado da vida humana se origina do valor que decorre da imagem de Deus (9.6). Os seres humanos são seres parecidos com Deus. Eles merecem ser amados e servidos.
Para saber mais: Tiago 3.7-12
Fonte: John Stott – A Bíblia Toda, O Ano Todo.

A Escolha de Matias At 1. 21-26 – John Stott


A proposta de Pedro de que fosse escolhido um décimo segundo apóstolo para substituir Judas (vs. 21-22) lança luz ao seu entendimento do apostolado, ao qual fizemos referência no capítulo anterior.
Em primeiro lugar, o ministério apostólico (v. 25, esse ministério e apostolado, tradução de diakonia e apostole) era ser "testemunha da sua ressurreição" (v. 22b). A ressurreição foi logo reconhecida como a prova divina da pessoa e da obra de Jesus Cristo, e Lucas descreve como "com grande poder os apóstolos davam o testemunho da ressurreição do Senhor Jesus" (At 4:33; cf. 13:30-31).
Em segundo lugar, para ser qualificado como apóstolo, portanto, era necessário ter presenciado a ressurreição da qual tinham sido chamados a testemunhar (e.g. 2:32; 3:15; 10:40-42). Era indispensável ter visto o Senhor ressurreto. Foi esse o fato que fez com que Paulo fosse acrescentado ao grupo apostólico. Mas para substituir Judas, tornando-se membro dos doze, cuja respon­sabilidade era preservar a verdadeira tradição sobre Jesus, eram necessárias ainda outras qualificações além dessas. É necessário, disse Pedro, que seja um dos homens que nos acompanharam todo o tempo que o Senhor andou entre  nós, começando no batismo de João, até  ao dia  em  que  dentre nós foi levado  às  alturas (vs. 21-22; cf. 10:39; 13:31). E por isso que eu não posso concordar com Campbell Morgan, que (seguindo outros) escreveu: "A eleição de Matias foi errada ... Ele era um homem bom, mas o homem errado para essa posição ... Não me disponho a omitir Paulo dos doze, pois creio que ele era o homem de Deus para preencher a vaga". Mas Lucas não oferece nenhum indício de que tenha havido um erro, apesar do fato óbvio de Paulo ter sido seu herói. Ademais, Paulo não possuía a plena qualificação que Pedro exigia.
Em terceiro lugar, a escolha apostólica deveria ser feita pelo próprio Senhor Jesus. Foi ele quem escolheu os doze originais.  Assim, ele também deveria escolher o substituto de Judas. É verdade que a escolha seria feita pelos cento e vinte fiéis (v. 21), mas o que eles fizeram foi destacar os possíveis candidatos e, dentre eles, escolher dois: José (cujo outro nome era Barsabás em hebraico e Justo em latim) e Matias, sendo que acerca deles nada mais sabemos, embora Eusébio diga que ambos eram membros dos Setenta; então eles oraram a Jesus, o Senhor, chamando-o (literalmente) de "conhecedor do coração" de todos (kardiagnostes, palavra que Lucas usa mais tarde em relação a Deus) e pediram que ele lhes mostrasse qual dos dois havia escolhido (v. 24). E os lançaram em sortes (v. 26), um método para descobrir a vontade de Deus, usado no Antigo Testamento, mas que não parece ter sido usado após a vinda do Espírito. Matias foi escolhido; sendo-lhe então votado lugar com os onze apóstolos.
E muito instrutivo notarmos o conjunto de fatores que propiciaram a descoberta da vontade de Deus quanto a essa questão. Primeiro vieram as orientações gerais das Escrituras, indicando que deveria haver uma substituição (vs. 16-21). Depois, eles usaram de bom senso: se o substituto de Judas deveria ter o mesmo ministério apostólico, ele deveria também ter as mesmas qualificações, incluindo a experiência de ser uma testemunha ocular de Jesus e ser escolhido pessoalmente pelo Mestre. Esse raciocínio dedutivo e saudável levou à indicação de José e Matias. Em terceiro lugar, eles oraram, pois, apesar de Jesus ter ido embora, ainda havia um acesso a ele através da oração e sabia-se que ele possuía o conhecimento do coração de todos, coisa de que careciam. Finalmente, eles lançaram a sorte através da qual criam que Jesus manifestaria sua vontade e escolha. Deixando de lado este quarto fator, pois agora o Espírito já nos foi dado, os outros três (as Escrituras, o bom senso e a oração) constituem uma combinação completa, confiável, pelo qual Deus nos guia hoje.

Fonte: A Mensagem de Atos – John Stott